Ando numa fase que só quero coisa simples, escrever para criança, sendo que assim, escrevo para mim mesma. Por isso, um dia vou te contar a história do coelhinho dentuço e saltitante. Ah, esse bichinho fica me seguindo aonde eu vá, será que virei Alice?
Viro-me, e lá está ele cravando os dentinhos na suculenta cenoura, olho para o outro lado e o danadinho já está rodopiando numa moita de capim, metendo o focinho na toca.
E fica me seguindo, me seguindo...
Que sinais me envias? Queres que eu te siga? Mas para onde podes me levar?
Espera, espera que eu irei!
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Mas o que importa o presente, passado - haverá futuro?
Vejo fotos do passado, onde tudo vai se mesclando com o presente. E se o futuro for o sono eterno em algum cantinho de céu ou mesmo num inferninho ardente, haveria de ser esse o verdadeiro presente?
No mosteiro Zen, seríamos todos monges. No bar da esquina, embriagada de vinhos doces e baratos, tendo como companheiros brutamontes suados e até refinados senhores, serias tu mulher da vida, apenas um naco de carne qualquer. Mau agouro ser mulher e da vida? Mas a vida é boa e bela, já diziam ilustríssimos poetas da modernidade digital.
Vamos por partes, usemos a razão. Que se dane a razão enquanto o mundo se estilhaçar em "sujos, feios e malvados". Sonhávamos com aquele oásis onde tendas se refrescavam à sombra das tamareiras, mas deceparam as tamareiras e a água secou em São Paulo. Essa mesma água que se evaporou dos ambiciosos corações dos homens e mulheres sem fé, fedorentos da lama do dinheiro fácil. Por isso, revejo fotos amareladas. Se somos infelizes? Para que nos serve o conceito de felicidade?
Brindemos com o vinho amargo.
No mosteiro Zen, seríamos todos monges. No bar da esquina, embriagada de vinhos doces e baratos, tendo como companheiros brutamontes suados e até refinados senhores, serias tu mulher da vida, apenas um naco de carne qualquer. Mau agouro ser mulher e da vida? Mas a vida é boa e bela, já diziam ilustríssimos poetas da modernidade digital.
Vamos por partes, usemos a razão. Que se dane a razão enquanto o mundo se estilhaçar em "sujos, feios e malvados". Sonhávamos com aquele oásis onde tendas se refrescavam à sombra das tamareiras, mas deceparam as tamareiras e a água secou em São Paulo. Essa mesma água que se evaporou dos ambiciosos corações dos homens e mulheres sem fé, fedorentos da lama do dinheiro fácil. Por isso, revejo fotos amareladas. Se somos infelizes? Para que nos serve o conceito de felicidade?
Brindemos com o vinho amargo.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
JK, o bom mineiro de Diamantina
Brasília sendo construída, desbravada pelas mãos calosas dos candangos. Enquanto isso, o mineiro de Diamantina, visitava escolas e brincava com as crianças no recreio.
Um dia, muito menina ainda, não sei o que senti ao vê-lo tão sorridente e brincalhão que corri em sua direção e ele me levantou em seus braços fortes, dizendo-me algo que a minha memória tenra não reteve. Mas uma curta frase eu pude balbuciar:
"- Juscelino, você é meu presidente!"
No planalto central, moramos por alguns anos e lá tomamos banhos nas claras águas das cachoeiras do Rio Paranoá, e foi também lá que conseguimos fazer um círculo de amizades super heterogêno.
Era gente de todo o Brasil: a baiana Edelzuita, o cearense seu Solano, dona Neném a mineira, o casal Afrodízio e seus cinco filhos que eram goianos, dona Amélia, a pernambucana, Eliane a carioca, e fica faltando mais, muito mais gente boa e fraterna. Todos com seus empregos e bem alimentados, todos felizes.
Quando voltamos ao Rio, trouxemos sementes das "flores de Brasília" que são os bipinatus e fizemos, eu e meus irmãos, um jardim das cores do teu grande coração, doutor Juscelino, o médico carinhoso e político conciliador que soube bem entender a alma simples do povo brasileiro.
Porque nos deixaste tanta saudade, Juscelino Kubitschek de Oliveira?
Vamos de "Peixe Vivo" com outro mineiro maravilhoso? Canta pra nós, Milton Nascimento!
Um dia, muito menina ainda, não sei o que senti ao vê-lo tão sorridente e brincalhão que corri em sua direção e ele me levantou em seus braços fortes, dizendo-me algo que a minha memória tenra não reteve. Mas uma curta frase eu pude balbuciar:
"- Juscelino, você é meu presidente!"
No planalto central, moramos por alguns anos e lá tomamos banhos nas claras águas das cachoeiras do Rio Paranoá, e foi também lá que conseguimos fazer um círculo de amizades super heterogêno.
Era gente de todo o Brasil: a baiana Edelzuita, o cearense seu Solano, dona Neném a mineira, o casal Afrodízio e seus cinco filhos que eram goianos, dona Amélia, a pernambucana, Eliane a carioca, e fica faltando mais, muito mais gente boa e fraterna. Todos com seus empregos e bem alimentados, todos felizes.
Quando voltamos ao Rio, trouxemos sementes das "flores de Brasília" que são os bipinatus e fizemos, eu e meus irmãos, um jardim das cores do teu grande coração, doutor Juscelino, o médico carinhoso e político conciliador que soube bem entender a alma simples do povo brasileiro.
Porque nos deixaste tanta saudade, Juscelino Kubitschek de Oliveira?
Vamos de "Peixe Vivo" com outro mineiro maravilhoso? Canta pra nós, Milton Nascimento!
sexta-feira, 17 de outubro de 2014
Segure-se no corrimão
Cuide-se bem ao subi-la
Segure-se ao corrimão
Da escada
O primeiro, o segundo, o terceiro
degraus parecem e são fáceis
Chegando ao topo
Respire
Mas não exulte de alegria
Sem soberba
Não se orgulhe
De ter sido
O primeiro
Para não escorregar
Nas caudas de cetins
Da sua própria vaidade
"Vaidade das vaidades"
Já dizia Salomão, o rei
"Tudo é vaidade"
Porque subir demora
E descer é rápido
Rolar escada abaixo
Mais fácil ainda
Segure-se firme
Aguente
Segure-se ao corrimão
Da escada
O primeiro, o segundo, o terceiro
degraus parecem e são fáceis
Chegando ao topo
Respire
Mas não exulte de alegria
Sem soberba
Não se orgulhe
De ter sido
O primeiro
Para não escorregar
Nas caudas de cetins
Da sua própria vaidade
"Vaidade das vaidades"
Já dizia Salomão, o rei
"Tudo é vaidade"
Porque subir demora
E descer é rápido
Rolar escada abaixo
Mais fácil ainda
Segure-se firme
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
O claro e o obscuro
Acendo a lanterna
Algo se perdeu
Pode ser a jóia ou o grampo de cabelo
Algo se perdeu
Foi-se a minha paz
Para debaixo da cama
Mas a luz que me acompanha
Pelos labirintos da perdição
Essa não se apagará
Abandono a busca e os ingratos
Objetos do meu desejo
Apego-me apenas à clara luz
Que fere de morte os abismos do obscuro...
Algo se perdeu
Pode ser a jóia ou o grampo de cabelo
Algo se perdeu
Foi-se a minha paz
Para debaixo da cama
Mas a luz que me acompanha
Pelos labirintos da perdição
Essa não se apagará
Abandono a busca e os ingratos
Objetos do meu desejo
Apego-me apenas à clara luz
Que fere de morte os abismos do obscuro...
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014
Helmut Berger e eu!
Passada essa "onda cívica" que quase me deixou de quatro, naquela de quem ganhou, quem não ganhou e acaba que...bem, todo mundo sabe como termina essa euforia de todos nós, o povão brasileiro, ou não sabemos? Enfim, volto airosamente a uma das minhas famosas paixões nunca dantes revelada e que a ninguém interessaria, não fosse eu essa linguaruda que sou, Helmut Berger. E vou logo advertindo aos senhores e senhoras que, se por acaso, tiverem "a feliz idéia" de pesquisá-lo em português na famosa (e incompleta) Wikipédia brasileira, vão derramar copiosas lágrimas de sangue. O ator, tido como o homem mais bonito do mundo e preferido dos diretores de filmes cult, só pode ser pesquisado em alemão (sentiram o drama?), italiano, inglês, por aí. O motivo? Mistério profundo, eu também estou dando tratos à bola para saber. Mas já consegui um razoável material nesse meu insaciável vício e martírio "Helmutiano".
Encontrei Helmut meio que por acaso e fui seguindo pistas. Passados quase dez anos, delicio-me agora com todo o seu esplendor artístico, principalmente na filmografia do perfeccionista Luchino Visconti.
bem, estão aí umas poucas cenas de Violência e Paixão que na minha modestíssima opinião são cenas - como poderia defini-las? Digamos que se trata de um romantismo meio erotizado, sem aquelas apelações detestáveis que estão tanto em voga por aí, isso aqui, meus queridos, é Arte, é emoção estética, papa fina. E o conteúdo? Ora, vejam o filme! Depois, um dia, quem sabe, eu volto à carga contando outras preciosidades. Ah, e tem essa música aí, Testarda Io, sendo interpretada na afinada e bela voz de Iva Zanicchi. E para irmos já encerrando, como curiosidade, vocês querem saber quem são os autores da mesma? Nada mais, nada menos que Roberto e Erasmo Carlos. Pois é, amigos, nós aqui torcendo os narizinhos para o popular, mas o Príncípe italiano (ele era nobre mesmo), Visconti, colocando lá, como trilha sonora de uma das suas obras mais primorosas, os nossos brasileirinhos da jovem guarda, "turma do lamê" e outros tantos rótulos menos votados que muita gente com problemas freudianos gosta de impor aos outros. Deixa pra lá, sem neuras, cuca fresca e vida que segue.
Tenho tanto e tanto para falar que esse postzinho é só uma gotinha d'água nesse profundo oceano de variadas nuances, principalmente no que toca a uma outra película também dirigida pelo Mestre Visconti, Ludwig. Aqui, são cinco horas de uma aula de História, cenários de época requintados, Romy Schneider e aquela exuberância interpretativa dele...Helmut Steinberger. Ou, como ele mesmo simplificava, Helmut Berger.
Delícia, puro deleite...
Helmut Berger e eu!
Encontrei Helmut meio que por acaso e fui seguindo pistas. Passados quase dez anos, delicio-me agora com todo o seu esplendor artístico, principalmente na filmografia do perfeccionista Luchino Visconti.
bem, estão aí umas poucas cenas de Violência e Paixão que na minha modestíssima opinião são cenas - como poderia defini-las? Digamos que se trata de um romantismo meio erotizado, sem aquelas apelações detestáveis que estão tanto em voga por aí, isso aqui, meus queridos, é Arte, é emoção estética, papa fina. E o conteúdo? Ora, vejam o filme! Depois, um dia, quem sabe, eu volto à carga contando outras preciosidades. Ah, e tem essa música aí, Testarda Io, sendo interpretada na afinada e bela voz de Iva Zanicchi. E para irmos já encerrando, como curiosidade, vocês querem saber quem são os autores da mesma? Nada mais, nada menos que Roberto e Erasmo Carlos. Pois é, amigos, nós aqui torcendo os narizinhos para o popular, mas o Príncípe italiano (ele era nobre mesmo), Visconti, colocando lá, como trilha sonora de uma das suas obras mais primorosas, os nossos brasileirinhos da jovem guarda, "turma do lamê" e outros tantos rótulos menos votados que muita gente com problemas freudianos gosta de impor aos outros. Deixa pra lá, sem neuras, cuca fresca e vida que segue.
Tenho tanto e tanto para falar que esse postzinho é só uma gotinha d'água nesse profundo oceano de variadas nuances, principalmente no que toca a uma outra película também dirigida pelo Mestre Visconti, Ludwig. Aqui, são cinco horas de uma aula de História, cenários de época requintados, Romy Schneider e aquela exuberância interpretativa dele...Helmut Steinberger. Ou, como ele mesmo simplificava, Helmut Berger.
Delícia, puro deleite...
Helmut Berger e eu!
domingo, 5 de outubro de 2014
Refletindo - As medalhas da sorte de Eduardo Campos
Eu acho que quem me acompanha nessa jornada virtual já percebeu que não gosto de "politizar" meus espaços. Portanto, não se enganem com o título acima. Não vou fazer a cabeça de ninguém, mesmo porque com a minha idade - sou uma criatura macróbia - não admito que façam a minha.
Mas não sei, esse "clima de eleições", esse inconsciente coletivo pega a gente, envolve a gente, sufoca a gente.
Só sei que a figura de Eduardo Campos ficou pairando no ar, embora o avião tenha caído vertiginosamente em terras paulistas.
Com ele haviam algumas medalhinhas da sorte que a família pediu e foram encontradas.
Que família sem sorte, poderíamos pensar.
Que nação infeliz somos, poderíamos gritar.
Vejam as medalhas nas mãos ainda sujas do bombeiro que as encontrou...
Isso não é nem uma postagem que valha a pena ser comentada mas...vejam, são santinhos e mais um trevinho de quatro folhas que ele sempre carregava próximo ao seu corpo brutalmente estilhaçado naquela explosão. Houve sorte para seus companheiros?
Ainda haverá sorte para nós?
______________________________________________________________________
Outro post virá em seguida, o que fiz aqui foi só uma rápida e emotiva reflexão. Descanse em paz, Eduardo Campos!
Mas não sei, esse "clima de eleições", esse inconsciente coletivo pega a gente, envolve a gente, sufoca a gente.
Só sei que a figura de Eduardo Campos ficou pairando no ar, embora o avião tenha caído vertiginosamente em terras paulistas.
Com ele haviam algumas medalhinhas da sorte que a família pediu e foram encontradas.
Que família sem sorte, poderíamos pensar.
Que nação infeliz somos, poderíamos gritar.
Vejam as medalhas nas mãos ainda sujas do bombeiro que as encontrou...
Isso não é nem uma postagem que valha a pena ser comentada mas...vejam, são santinhos e mais um trevinho de quatro folhas que ele sempre carregava próximo ao seu corpo brutalmente estilhaçado naquela explosão. Houve sorte para seus companheiros?
Ainda haverá sorte para nós?
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Outro post virá em seguida, o que fiz aqui foi só uma rápida e emotiva reflexão. Descanse em paz, Eduardo Campos!
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terça-feira, 30 de setembro de 2014
Quando publicamos um livro só fica faltando um ingrediente - humildade
Foi o primeiro livro, fiquei orgulhosa a princípio, mas felizmente essa fase passou. Bem encadernado e ilustrado, obteve bastante sucesso na minha cidade. Sucesso esse que só serviu para inflar o meu ego de menina metida a intelectual.
Felizmente, o orgulho foi lapidado a tal ponto que nunca mais o manuseei, aliás nem me lembrava mais da sua existência até que hoje, justamente hoje, fui espanar a poeira e lá estava a tal "A Ilha do Milionário" a me espreitar. Mas eu lhe sussurrei baixinho: não vou lhe fazer concessões, você foi romântico demais e tudo acabou entre nós, não quero mais papo contigo.
Insuportável a história, mas para quem gosta de um bom copo d'água gelada com bastante açúcar, dá para descer redondo e encarar.
Um empresário, condenado por um diagnóstico letal por seu médico de confiança, compra uma belíssima ilha no Caribe e muda-se para lá com tudo o que tem direito. Mas...ohhhhh, falta-lhe a sua "rainha", o grande amor de sua vida que ele projeta na sua arrumadeira, a principio muito boazinha e solícita, mas que acaba por tentar abreviar o fim do seu ex patrão em conluio com quem? Obviamente com o tal doutor de confiança e blá, blá, blá, blá.
E agora, passados tantos e tantos anos, já consigo alinhavar algo um pouco melhor melhor, mas lutei e luto muito comigo mesma, com a minha vaidade pessoal e, principalmente, com a humildade em reconhecer os verdadeiros talentos da literatura nacional e mundial. Li Fernando Pessoa, li desde Drummond a Faulkner e a lista não parou nem vai parar nunca. E tem ainda o cinema que se traduz atualmente na minha verdadeira e maior paixão.
Será que viverei para assistir a todos os filmes (de qualidade) do mundo?
Só mais uma breve observação; a música italiana aqui cantada vai continuar porque existe uma, nessa sim, uma fascinante história por trás da bela voz de Iva Zanicchi e que será contada na próxima postagem, assim espero.
As flores que aparecem aqui ficam por conta de um capítulo dedicado a um jardim de tulipas que César (o coitadinho do milionário) plantara com suas próprias mãos. Bom, pelo menos essa foi a única e melhor parte dessa trama que ficou enterrada no passado, e para sempre.
Felizmente, o orgulho foi lapidado a tal ponto que nunca mais o manuseei, aliás nem me lembrava mais da sua existência até que hoje, justamente hoje, fui espanar a poeira e lá estava a tal "A Ilha do Milionário" a me espreitar. Mas eu lhe sussurrei baixinho: não vou lhe fazer concessões, você foi romântico demais e tudo acabou entre nós, não quero mais papo contigo.
Insuportável a história, mas para quem gosta de um bom copo d'água gelada com bastante açúcar, dá para descer redondo e encarar.
Um empresário, condenado por um diagnóstico letal por seu médico de confiança, compra uma belíssima ilha no Caribe e muda-se para lá com tudo o que tem direito. Mas...ohhhhh, falta-lhe a sua "rainha", o grande amor de sua vida que ele projeta na sua arrumadeira, a principio muito boazinha e solícita, mas que acaba por tentar abreviar o fim do seu ex patrão em conluio com quem? Obviamente com o tal doutor de confiança e blá, blá, blá, blá.
E agora, passados tantos e tantos anos, já consigo alinhavar algo um pouco melhor melhor, mas lutei e luto muito comigo mesma, com a minha vaidade pessoal e, principalmente, com a humildade em reconhecer os verdadeiros talentos da literatura nacional e mundial. Li Fernando Pessoa, li desde Drummond a Faulkner e a lista não parou nem vai parar nunca. E tem ainda o cinema que se traduz atualmente na minha verdadeira e maior paixão.
Será que viverei para assistir a todos os filmes (de qualidade) do mundo?
Só mais uma breve observação; a música italiana aqui cantada vai continuar porque existe uma, nessa sim, uma fascinante história por trás da bela voz de Iva Zanicchi e que será contada na próxima postagem, assim espero.
As flores que aparecem aqui ficam por conta de um capítulo dedicado a um jardim de tulipas que César (o coitadinho do milionário) plantara com suas próprias mãos. Bom, pelo menos essa foi a única e melhor parte dessa trama que ficou enterrada no passado, e para sempre.
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Antonioni - Em busca da alma feminina
No começo, ele andou realizando filmes policiais, mas no fundo, no fundo, Michelangelo Antonioni não se satisfazia com experiências que o levariam somente a sucessos comerciais de puro entretenimento. Ele queria mais, queria uma obra autoral e com a sua inconfundível marca universalista e perene. Queria e fazia enquadramentos perfeitos, com fotografias elegantes, de qualidade, mesmo porque a sua formação de artista plástico assim o exigia.
Tudo aconteceu na década de sessenta, no auge do neorealismo da cinematografia italiana. já casado com Monica Vitti - atriz perfeita para os seus filmes - foi que a sua genialidade despertou por completo no que se costuma chamar hoje em dia de trilogia da incomunicabilidade humana: A Aventura, A noite e O Eclípse. Alguns ainda falam em quadrilogia e incluem Deserto Vermelho. Na verdade, nem uma coisa, nem outra, a proposta de Antonioni sempre foi profundamente existencialista e não existe uma linha de continuidade entre seus filmes, além disso, ele mesmo dizia que suas obras foram feitas porque ele sentia a necessidade de se comunicar com o seu público. O que há mesmo em Antonioni é "a sua insistência" em esmiuçar a temática do relacionamento entre os casais que, embora apaixonados, não se realizam em seus sentimentos e acabam vagando solitários por caminhos que nem mesmo ele conseguiu perscrutar.
Seus personagens, em geral, são da classe rica, mas isso não passa de pano de fundo, um detalhe apenas para que ele possa delinear o seu propósito maior, ou seja, dar um mergulho sem volta na alma humana e, mais precisamente, na alma feminina.
Em O Eclípse de 1962, o personagem interpretado magistralmente por Monica Vitti, mostra-se na tela tão angustiada com seu casamento que sai de casa sem um destino certo e acaba por se refugiar na casa de uma amiga que coleciona esculturas e quadros de arte africana. Quando, em dado momento quer se distrair, ela começa a dançar como uma negra,recebe dessa mesma amiga uma ameaça velada num momento em que mais precisa de alegria: " Não brinque com os negros!"
Mas esperem, não vão pensando que as histórias de Antonioni estejam indissoluvelmente presas aos seus personagens, suas tristezas e pequenos dramas burgueses, pois ele sempre os abandona na estrada e os deixa livres nas ruas sem o foco da sua lente perturbadora. Nunca esperem coerência dele, nunca.
Antonioni demonstra quase claramente o seu desapego com a cultura do descartável que tanto é cara ao capitalismo. De alguma forma, ele ressalta as qualidades daqueles que são frágeis e abandonados. Por exemplo, em As Amigas, ele se apega a uma jovem que acaba por suicidar-se quando suas amigas fúteis do mundo da moda tripudiam sobre ela, pisoteando sua sensibilidade e inteligência.
Em Profissão Repórter, talvez o melhor papel de Jack Nicholson, ele ao tentar se libertar dos grilhões do destino toma a identidade de um morto, acabando por perceber que de nada lhe adiantou tanto esforço nessa vã empreitada, e que mesmo com o carinho de sua mulher, perde toda a força vital de prosseguir com a farsa, entregando-se então a uma morte inglória, sem qualquer reação.
Blow up - Depois Daquele Beijo, já acontece na sua fase colorida, colocando em ação um fotógrafo de moda bem sucedido, mas que termina envolvido com um crime onde, sem querer, descobre o amor do personagem interpretado por Vanessa Redgrave que o deixa sem qualquer explicação convincente, tendo como final um estado de total solidão e desamor.
Para encerrarmos, todos os projetos humanos sucumbem e só resta o silêncio na alma dos personagens que povoam o universo de Antonioni. Mas nada disso é gratuito, é preciso ter os olhos e o coração bem sintonizados e abertos para penetrarmos nessa intrincada construção filosófica do mestre Antonioni.
"Visione del silenzio
Angulo vuoto
Pagina senza parole
Una lettera scritta
Sopra un viso
Di pietra e vapore
Amore
Inutile finestra..." assim cantou Caetano Veloso em seu último filme, Eros.
Agradecimentos ao pesquisador e cinéfilo dos melhores que eu bem conheço, Rodrigo de Moraes, que sempre me incentivou a escrever essas linhas.
Tudo aconteceu na década de sessenta, no auge do neorealismo da cinematografia italiana. já casado com Monica Vitti - atriz perfeita para os seus filmes - foi que a sua genialidade despertou por completo no que se costuma chamar hoje em dia de trilogia da incomunicabilidade humana: A Aventura, A noite e O Eclípse. Alguns ainda falam em quadrilogia e incluem Deserto Vermelho. Na verdade, nem uma coisa, nem outra, a proposta de Antonioni sempre foi profundamente existencialista e não existe uma linha de continuidade entre seus filmes, além disso, ele mesmo dizia que suas obras foram feitas porque ele sentia a necessidade de se comunicar com o seu público. O que há mesmo em Antonioni é "a sua insistência" em esmiuçar a temática do relacionamento entre os casais que, embora apaixonados, não se realizam em seus sentimentos e acabam vagando solitários por caminhos que nem mesmo ele conseguiu perscrutar.
Seus personagens, em geral, são da classe rica, mas isso não passa de pano de fundo, um detalhe apenas para que ele possa delinear o seu propósito maior, ou seja, dar um mergulho sem volta na alma humana e, mais precisamente, na alma feminina.
Em O Eclípse de 1962, o personagem interpretado magistralmente por Monica Vitti, mostra-se na tela tão angustiada com seu casamento que sai de casa sem um destino certo e acaba por se refugiar na casa de uma amiga que coleciona esculturas e quadros de arte africana. Quando, em dado momento quer se distrair, ela começa a dançar como uma negra,recebe dessa mesma amiga uma ameaça velada num momento em que mais precisa de alegria: " Não brinque com os negros!"
Mas esperem, não vão pensando que as histórias de Antonioni estejam indissoluvelmente presas aos seus personagens, suas tristezas e pequenos dramas burgueses, pois ele sempre os abandona na estrada e os deixa livres nas ruas sem o foco da sua lente perturbadora. Nunca esperem coerência dele, nunca.
Antonioni demonstra quase claramente o seu desapego com a cultura do descartável que tanto é cara ao capitalismo. De alguma forma, ele ressalta as qualidades daqueles que são frágeis e abandonados. Por exemplo, em As Amigas, ele se apega a uma jovem que acaba por suicidar-se quando suas amigas fúteis do mundo da moda tripudiam sobre ela, pisoteando sua sensibilidade e inteligência.
Em Profissão Repórter, talvez o melhor papel de Jack Nicholson, ele ao tentar se libertar dos grilhões do destino toma a identidade de um morto, acabando por perceber que de nada lhe adiantou tanto esforço nessa vã empreitada, e que mesmo com o carinho de sua mulher, perde toda a força vital de prosseguir com a farsa, entregando-se então a uma morte inglória, sem qualquer reação.
Blow up - Depois Daquele Beijo, já acontece na sua fase colorida, colocando em ação um fotógrafo de moda bem sucedido, mas que termina envolvido com um crime onde, sem querer, descobre o amor do personagem interpretado por Vanessa Redgrave que o deixa sem qualquer explicação convincente, tendo como final um estado de total solidão e desamor.
Para encerrarmos, todos os projetos humanos sucumbem e só resta o silêncio na alma dos personagens que povoam o universo de Antonioni. Mas nada disso é gratuito, é preciso ter os olhos e o coração bem sintonizados e abertos para penetrarmos nessa intrincada construção filosófica do mestre Antonioni.
"Visione del silenzio
Angulo vuoto
Pagina senza parole
Una lettera scritta
Sopra un viso
Di pietra e vapore
Amore
Inutile finestra..." assim cantou Caetano Veloso em seu último filme, Eros.
Agradecimentos ao pesquisador e cinéfilo dos melhores que eu bem conheço, Rodrigo de Moraes, que sempre me incentivou a escrever essas linhas.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2014
E viva o cordão encarnado!
Estado de Alagoas, década de trinta. Já na adolescência, lá pelos seus quinze anos, ela participava das apresentações públicas que colocavam em disputa os tradicionais cordões azul e encarnado. A mocinha vibrava pelo seu cordão encarnado, a cor de sua predileção.
Os tecidos vermelhos vinham da capital, Maceió, mas eram costurados por dona Cecília que caprichava na saia rodada e nos rendados.
E assim, a jovenzinha girava nas sapatilhas e ali, extravazava toda a sua alegria em direção aos olhos e corações dos rapazes que a assistiam, entre eles, aquele que viria a ser meu futuro e querido pai. E já dá pra saber quem seria a vaidosa menina? Ah, essa só poderia ser minha mãe, tão perfumada em suaves fragâncias, e muito graciosa naqueles trajes típicos.
Por isso, costumávamos ouvi-la na hora do almoço lá em casa, entoando a seguinte estrofe:
"Sou rosa vermelha,
Sou teu bem querer
A rosa vermelha encanta
Hei de amá-la até morrer"
As apresentações dos cordões azul e encarnado ainda fazem parte do folclore nordestino até os dias de hoje. E viva o cordão encarnado!
Os tecidos vermelhos vinham da capital, Maceió, mas eram costurados por dona Cecília que caprichava na saia rodada e nos rendados.
E assim, a jovenzinha girava nas sapatilhas e ali, extravazava toda a sua alegria em direção aos olhos e corações dos rapazes que a assistiam, entre eles, aquele que viria a ser meu futuro e querido pai. E já dá pra saber quem seria a vaidosa menina? Ah, essa só poderia ser minha mãe, tão perfumada em suaves fragâncias, e muito graciosa naqueles trajes típicos.
Por isso, costumávamos ouvi-la na hora do almoço lá em casa, entoando a seguinte estrofe:
"Sou rosa vermelha,
Sou teu bem querer
A rosa vermelha encanta
Hei de amá-la até morrer"
As apresentações dos cordões azul e encarnado ainda fazem parte do folclore nordestino até os dias de hoje. E viva o cordão encarnado!
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