sexta-feira, 6 de julho de 2012

Labaredas de Junho a Julho


Não, não é preciso ser religioso. Apenas venha, achegue-se a essas barraquinhas de cocadas, pudins, pamonhas, pés-de-moleque que os nossos ambulantes armam com carinho para melhor servirem ao povo que participa dos festejos juninos e julinos. Vale a pena quebrar aquela dieta chata e cairmos de boca nos quitutes ali expostos, essa é "a santa gula" que nenhum santo vai condenar. Ah, com certeza, não vai, não.Não fica pesado no bolso; um real daqui, dois dali, e está completa a deliciosa refeição.
Esperem, estou avistando daqui uma moçoila loura que, em desespero de causa, lança um bilhetinho sobre a cabeça de Santo Antonio. Pode ser que o seu amor tenha sumido na poeira da saia de uma morena e, coitada da loirinha, com o coração aos pedaços, suplica ao santinho já meio careca e abraçado ao Menino Jesus, que dê um jeitinho. Será que ele vai atendê-la? Mais uma dentada na cocada e lá vem chegando São João, ardente em fagulhas e labaredas, assiste ao preparo de batatas doces, mandiocas e milhos, sendo assados no braseiro. E a "santa gula" continua com um fervor sem igual. Vamos comer antes que sejamos comidos, essa é a palavra de ordem.
Pedro, circunspecto e sóbrio, resolve acabar com a brincadeira e, todo engomado nas suas vestes alvas, toma de uma enorme chave dourada e acabou-se o que era doce.
Anarriê! Vamos formar a quadrilha! Entendam, eu falei em quadrilha no melhor dos sentidos. É bom frisar bem isso, pois nos tempos que correm...bom, deixa pra lá!
Quando eu nasci, veio um anjo torto. Peraí, isso é do Carlos, o Drummond. Retomando a palavra: quando eu nasci, uma dessas faíscas atingiu o ventre da minha mãezinha quase torrando-me o pequenino e tenro cérebro, mas meu São Joãozinho permitiu que restasse por ali umas sobras de inspiração. Por isso, hoje aqui estou, torrando a paciência do leitor que ainda, pacientemente, me lê.
Ano que vem tem mais, muito mais!
Na parte musical, vamos de Gal em Festa do Interior.Essa é pra sacudir o arraiá da blogosfera.
Olha a Bahia aí, Siba e Lúcia!!!

terça-feira, 12 de junho de 2012

Vovô, o homem invisível

Do minúsculo bolso do colete, ele sacava um papel amarfanhado, velho, gasto. Muito contrito, imbuído do fervor da fé, movia os lábios. Seus olhos, absurdamente azuis, passeavam, indo e vindo nas órbitas em perseguição às linhas mágicas já por demais decoradas e descoradas por sua imaginação fértil e madura.
Momento seguinte, lá estava o lépido velhinho, aquecendo-se no fogão à lenha, caneca fumegante de café na mão.
Vô, me conta, como aconteceu essa mágica? Pergunta o netinho mais esperto.
Qual mágica, filho? Responde ele, sem demonstrar nenhuma vontade de responder.
O sinhô tava rezando agora no oratório e agora, tá aqui tomando café com a gente. Vai, me conta!
Tomou mais um bom gole do líquido escuro e fervente quando, repentinamente, o brilho intenso do seu olhar tomou conta das nossas vidas... para sempre. 

Nota: As duas imagens usadas aqui pertencem ao grande ator sueco, Max Von Sidow, fato que, além de nos honrar muito, vem de encontro à sua indicação ao Oscar passado, embora não tenha levado o prêmio, infelizmente, pois o merecia. Ator de obra extensa e de qualidades cênicas acima da média, Von Sidow foi um dos atores mais prestigiados pelos grandes diretores, como, por exemplo, Ingmar Bergman. Nesse seu último filme, onde faz o papel de velhinho misterioso e (talvez) mudo, ele prende a nossa atenção do começo ao fim. Claro, não vou contar o filme. Vejam e reflitam por si próprios, mas aviso: não é um drama lacrimejante.
Quanto às nossas férias, foram boas. Agradeço a todos que me deram apoio  com as suas presenças e comentários.
Um beijo enorme!!!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

As Aquarelas Vivas do João

Só quem já tentou pintar uma aquarela é que pode dizer da emoção, da euforia e também de uma pitada de dor ao manipular pincéis e paletas.
Corrigir algum traço ou cor mal distribuídos é impossível para um aquarelista. Daí, a tal pitada  de dor a que me referi acima. Um simples traço tem que ser definitivo e tudo vai ficando ali, secando rápido. Quando você menos espera, a cor surge do nada, pequeno milagre das cores.
Digo que aquarela é vida porque na vida real não há rascunho, nada pode ser refeito, nem consertado. Se não realizarmos  bem uma tarefa, bye, bye! Se acertarmos, que beleza!O coração se engalana e tudo é festa.
Uma flor não faz rascunho do seu desabrochar, ou abre suas pétalas, ou murcha. Essa é a dialética da vida, vamos aceitá-la, temos que aceitá-la. Lutar contra a lei da vida é burrice das mais grosseiras.
Um pintor de aquarelas se envolve até os ossos para concluir com êxito seu insano trabalho. Ali tem alma, tem arte e muito amor, amor estético, um íntimo prazer que só o artista experimenta.
Meu amigo, João Pinto Ferreira, é um dos mestres das aquarelas vivas mais sensíveis que conheço. A ele dedico essas poucas, mas intensas linhas. A ele agradeço a amizade e o afeto que nos une. E para informação ao público em geral, João é irmão da Graça, ou vice versa, a ordem de chegada não importa, são dois talentos que habitam entre nós e para o nosso deleite. Ele, nas Artes Plásticas. Ela, nas Letras.
Muito obrigada, amigo!
A primeira aquarela intitula-se Liquidâmbar no Outono, e a segunda é Camélia na Primavera.
Vão se deliciando aí enquanto tiro umas feriazinhas, ok?
Beijos! Eu volto!
O Fundo, beleza de música com Leila Pinheiro, traduz muito do que tentei passar, vamos ouvi-la?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Hoje é dia de Jorge, Ogum e El Khidir

Hoje é dia de Jorge, aquele que nasceu na Capadócia. Fogos de artifícios espoucam pela madrugada, me assustam, mas recupero-me e vejo no céu a festa de Jorge. Porque hoje é dia de um ser de amor, um ser que veio ao mundo pela paz, Jorge.
Chamado de São Jorge pelos católicos, o bom guerreiro que enfrentou o dragão da maldade, o homem de Deus que salvou a donzela, detém uma tradição tão vasta que o aproxima de vários povos do mundo inteiro. Querem ter uma idéia? Na Síria, por exemplo, Jorge é reverenciado como o El Khidir.
El Khidir, o santo de turbante verde que só se apresenta aos que ainda conservam a pureza no coração, aos que estendem sua mão para os mais necessitados. 
Nas religiões afro-brasileiras, ele é sincretizado como Ogum, um guerreiro destemido de espada em punho, montado no seu cavalo branco, percorrendo estradas e socorrendo os que são perseguidos por inimigos cruéis, fechando seus corpos, impedindo que penetre neles os olhos do mal, os chamados olhos grandes dos perversos e invejosos.
Em cada casa humilde, em cada estabelecimento comercial, principalmente nos pequenos bares, os chamados pés sujos, há uma imagem de São Jorge com uma lâmpada vermelha, luzindo de forma perene.
Fernandinha Abreu canta a oração de São Jorge. Salve, Salve, Jorge!

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Palavras boas . Palavras más

Ou você escreve certo, ou escreve errado, ou você é bom naquilo que faz, ou você não sabe lhufas. É assim mesmo que a banda toca? Ainda vivemos sob o signo do Não, da castração. Ou tu tem estilo, meu chapinha, ou não tem. Millôr Fernandes gritava em todos os seus artigos: "Enfim, um escritor sem estilo!" Cortou os rótulos do pseudo intelectualismo e chegou ao topo da montanha. E lá, há de ficar para sempre, mas não como uma estátua de mármore, ficará como exemplo vivo, sarcástico, debochado, mordaz, crítico dos críticos, sem o fardo e o fardão dos acadêmicos e imortais.
Uma topada e o dedão machucado te faz explodir num sonoro palavrão. Como desabafar a dor sem um palavrão?
Quando os mestres filólogos encontraram  a raiz da palavra mais cara ao ser humano, Mãe, "viram" um homem desesperado clamando pelo aconchego da sua mãezinha. Terna palavra essa. Depois, veio o termo Água: o homem sedento no deserto queria matar sua sede, mas não a matou, outras sedes e fomes viriam perturbá-lo através dos tempos.
O latim vulgar era vulgar mesmo, o povão, dito inculto, na sua avassaladora sabedoria, o impôs sobre o esnobismo do latim culto, apenas escrito, aquele que só os sábios de narizes empinados guardavam a sete chaves, por essas e outras, perdeu-se nas areias do tempo, bem feito! Para nossa sorte, vulgarizamos o latim, mas os gramáticos não gostaram nem um pouquinho dessa história. Vida que segue! Deixemos os gramáticos na sua "ilha da fantasia", eles precisam sobreviver.
Palavras como matar, trair, ferir, falsear, torturar, transar, invejar, ficaram estigmatizadas como sujas.
"Quero matar (acabar) com o vício de fumar!"
Pronto, matar virou palavra boa, limpa. Mas quando o psicopata assassino planeja aniquilar sua vítima, ele pensa: "Vou matar esse cara com requintes de crueldade..."
Puxa, a coisa aí já ficou feia, né?
Palavras, metalinguagem, pensamentos implícitos, o inconsciente coletivo, a psicogenética, os neologismos, a neurolinguística, o falar "errado" dos deserdados, tudo, tudinho nos servem como ferramentas nessa ânsia, nessa Babel de ensaios e erros em que enveredamos quando tentamos transmitir ao outro um pouco das nossas impressões. 
Impressões, apenas impressões, pois a Palavra Sagrada dos deuses, a Palavra impronunciável permanecerá oculta.
Dalida e Alain Delon dialogam musicalmente em Parole, Parole, palavra que significa "palavra" em língua italiana. Muito legal! Percam - ou ganhem - dois minutinhos para escutá-los.
"Última Flor do Lácio
Inculta e bela
És, a um tempo,
Esplendor e sepultura..."
Acho que cabe aqui invocar o espírito do bom parnasiano (qual foi o chato que rotulou assim o grande Poeta?) Olavo Bilac...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Formiguinhas sem asas

Vez por outra, Armandito dava umas festinhas de arromba no seu apê. Terno branco, cabelo empapado de gel, até que ficava apresentável, mas não conseguia disfarçar seu complexo de inferioridade que o infernizava sem dó nem piedade: era feio. Magricela, olhos projetados das órbitas e aquela boca enorme de dentes bem separados e gastos pelo vício de fumar.Tantas deformidades não o ajudavam em nada na sua esquisitíssima imagem. Contudo, era casado com uma das mais cobiçadas beldades da localidade, e desse insólito matrimônio, nascera a sua "princesinha", assim tratava a sua filha única que, tendo puxado à mãe, herdara da mesma avantajados dotes de feminilidade. Eram as boazudas do Armandito, assim diziam as temíveis más línguas. Quem consegue se livrar delas nesse mundo?
Voltemos às suas festinhas onde, pra começo de conversa e antes dos comes e bebes, o pobre homem já lançava à turma ali reunida um recadinho musical: "Formiga que quer se perder cria asa..." O clima pesava de início, mas depois, ora, ninguém era de ferro e a descontração vinha na mesma proporção em que as caipirinhas, cervejas e whiskies com guaraná desciam goelas abaixo dos sedentos convidados.
Ocorria, lá pela metade dos folguedos, um certo fenônemo que sempre inquietava a alma já por demais inquieta do dono da casa. Dona Rosália, a mulher e Nicinha, a filha, desapareciam por completo da sua vista já turvada pelo álcool e vexame.
Armandito, transpirando raiva e humilhação por todos os poros, não se dava por vencido. Sacava do lenço de seda amarelo e enxugava a testa, gesto esse que não passava desapercebido aos que o tratavam com sarcasmo e hipocrisia. Olhares arrevezados eram trocados daqui e dali mas, fazer o que? Com asas ou sem, as formiguinhas voavam em direção a um outro formigueiro de local ignorado, onde, provavelmente, eram aguardadas por formigões gulosos, insaciáveis.
A festa, ainda mais animada, continuava.
Geraldo Pereira compôs com maestria e a voz doce e afinada de Zizi Possi canta: Escurinha.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Não sou maçã de Cézanne

Não queiram arrancar-me nacos suculentos. Pedras duras quebrarão todos os teus dentes, todos.Quando Cézanne, já muito além da loucura impressionista, dizia às suas modelos que fizessem "caras de maçãs", no mínimo, as engolia com casca e tudo. Mestre da arte da natureza morta, suas esculturas perenes já transitavam no cubismo nascente dos seus pincéis.
Passado todo esse tempo, antropófagos e devoradores de almas, continuam a mastigar suas vítimas, lançando sementes magoadas às trevas onde nada germina. Tudo é pesadelo, sombra.
No mais, entendam como quiserem!Para Lennon e McCartney, Milton Nascimento canta.

terça-feira, 6 de março de 2012

Packard, um carro fraternal

Os carros de hoje. Troca-se um carro como quem muda de camisa, sem nenhum remorso e com um ar de desapego quase inescrupuloso, e ainda há o agravante de ter que ser um carro da moda, com nome sem graça, igualzinho aos outros, sem personalidade. Vidros fumê, o senhor e a madame saem para o trabalho sem dar um bom dia para o vizinho. Afundam os corpinhos sarados no conforto do possante. Fim.
Carros de ontem. Levavam a criançada da rua para a escola, eram espaçosos e conversíveis, de preferência. O caso do Packard grená era assim.
- Vizinho, pode dar uma carona pra minha patroa que vai ao hospital ganhar neném? Nada de recusa ou cara feia e ainda tomava-se uma cervejota para a comemoração do memorável evento. Era o xixi do bebê.Final de semana na praia, com certeza. Na capota do Packard sempre havia lugar para mais um, ou mais uns, quantos coubessem. Corpos suados, cabelos soltos ao vento, liberdade sem medo do perigo. Que ato de perigo teria a audácia de rondar a nossa felicidade?
O "bichão" vermelhão deslizava pelas estradas recém pavimentadas desses brasis tão virgens e verdinhos, mas com direito às barraquinhas de frutas à beira da estrada. Não tinha assalto. Inacreditável, né?
Todo mundo cantava em altos brados com mamãe puxando o coral. Se tinha rádio? Claro que tinha, mas só para ouvir o Repórter Esso. Ninguém desafinava nos anos dourados das décadas de 40 e 50.
Paro por aqui, estou ficando saudosista demais. Afinal, só queria falar da alegria de ser fraternal, amigo, leal, essas coisas que cheiram a mofo.
NB: A história do Packard, em resumo, é bem interessante. Foi um carro que nasceu de um desafio entre dois amigos engenheiros. Packard era o sobrenome de um deles e foi ele quem o lançou a público. Era um veículo fora de linha, fabricado num pequeno galpão em Ohio, Estados Unidos.Essa pesquisa e resgate histórico foram muito gratificantes para mim que passei uma boa parte da "minha infância querida" sentadinha lá na tal capota grená, pedindo (aos berros) pro papai correr, ir fundo. Afinal, como dizia o slogan da época:
"Ou você tem um carro, ou tem um Packard!"
A musiquinha? Que musiquinha que nada, é o maestro Tom Jobim em Anos Dourados.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Meu silêncio...

Meu silêncio guarda ruídos do passado. A hora do café da manhã. Meus pais se arrumando para sair.
Na cozinha, as panelas falavam e os talheres se debatiam em sons metálicos.
Um silêncio pesado, grávido de pensamentos sem nenhum sentido.
Do presente, meu silêncio retira, aspira o ar do azul do céu e o dourado dos raios do sol das manhãs, mas com algumas nuvens movendo-se na lentidão dos ventos.
Essa boca fechada, essa mente repleta e alerta.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

De máscaras e mascarados

Retire a máscara e os vincos de tristeza dessa face, mas tome cuidado, não deixe cair no chão a velha máscara da falsa alegria, você vai precisar muito dela nos próximos dias.
Desfile seu charme pelos bailes e bares, sorridente e com o seu bem, pode ser arlequim ou pierrô, pode ser até os dois. Ninguém vai apontar nada de feio em você, tranquilidade total.
Já na quarta-feira, confetes e serpentinas irão juntar-se às suas perdidas e amarrotadas fantasias, mas as cinzas serão lançadas sobre sua cabeça, arrependimentos virão à tona.
Voltaremos a ser mascarados de cara limpa, na rotina dos dias arrastados e sem máscaras de pano, de cara limpa. Haverão contas a pagar, roupas pra lavar, filas em pé por horas e horas em bancos e supermercados, crianças e velhos pedindo esmolas sem que você os possa confortar, notícias catastróficas nas grandes cidades, secas e inundações.
Esqueça!
Por enquanto, divirta-se!
Pule ao som das velhas marchinhas.
Afinal, é carnaval...
Máscara Negra com Zé Kéti! Essa daí marcou demais os meus jovens e belos bailes de carnaval de salão.