quarta-feira, 5 de maio de 2010

Parto de Ternura...

DEDICATÓRIA: à minha saudosa e querida Mãe, Maria José Pantaleão, bem como a todas as mães, pais, avós e famílias do mundo...

Não sei se houve o parto, nem se foi de ternura. Fecho o portão atrás de mim e saio para a academia. Tênis, camiseta branca e cuca fresca. Atravesso a esquina e me deparo com uma mulher com um enorme barrigão. Humilde, limpa e até com um semblante terno.
Suas palavras desfazem-me a boa impressão causada, são de desespero:
- Moça, vou abortar!
-Não, isso nunca! Respondo em cima.
- Meu marido me deixou, vou ter gêmeos e já tenho mais três filhos...
-Edith (ela disse-me o nome), se você fizer isso seus filhos vão ficar órfãos, pois com tantos meses de gestação seus gêmeos e você vão morrer.
- Vou fazer! Fala com um brilho insano no olhar.
E agora? Penso eu. Tenho que arrumar um jeito rápido de convencê-la a não fazer tal bobagem.
- Olha, querida - vou adoçando a voz - eu vou adotar seus gêmeos, tá certo assim?
Edith abre-me o sorriso mais triste que já vi e fica calada. Saiu carregando no ventre criaturas já abortadas pelo mundo.
Penso em Edith, nas mães, nos maridos, não penso em mim. Afinal, somos seres também abortados sobre a terra.
Gostaria de dizer feliz dia das mães, mas esse fato ocorreu. Perdão, não dá!

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Na foto abaixo: Minha mãe (Vanuza) comigo no colo. Ela faz cada uma comigo!

Luiz Rattes Vieira, o nosso LUIZ VIEIRA de "Menino de Braçanã" e "Prelúdio Para Ninar Gente Grande" ("Menino Passarinho"). Ele gosta que o chamem de cantador; um dos maiores estudiosos do Cordel no Brasil, pernambucano de Caruaru. Voz vigorosa, aqui demonstrada em "Paz do Meu Amor" ("Estrela Matutina"). O povo dá outros títulos às suas músicas e Luiz respeita a voz do povo, tá certo!
"Você é isso/É parto de ternura/ Lágrima que é pura/Paz do meu amor..."
É melhor você mesmo cantar, Luiz!
Postado por Guilherme. Minha mãe já deixou o post pronto. Mãe, te amo!
*Administro esse blog autorizado por minha mãe. Guilherme Pantaleão

terça-feira, 27 de abril de 2010

Uma Mulher no Banco dos Réus

A entrevista prossegue com a atriz quando, à certa altura, a jornalista resolve inquiri-la com mais veemência sobre um certo relacionamento amoroso da mesma. História complicada, mal explicada, cabeluda. A entrevistada encolhe-se na cadeira, mas responde a todas as perguntas. Mesmo assim, os ataques continuam e a tal jornalista torna-se mais incisiva e arvora-se como juíza da vida alheia.
- Por que você vem a público confessar o que nós, mulheres, não ousamos dizer nem a nós mesmas? Temos que sofrer caladas, essa é a regra. Quer saber do que mais? Eu te condeno!
A atriz levanta-se, dirige-se ao palco e começa a cantar "The More I See You". Vestido longo, cor-da-pele, bordado e bem justo ao corpo com suas belas curvas todas à mostra. Cabeleira ruiva, cintilando à luz dos refletores. Interpreta bem a canção. A câmera aproxima-se em close e um caudal de lágrimas lhe escorre rosto abaixo, silentemente. Forma-se um rio ou, quem sabe, um oceano...
Julie London e sua voz sensual, ouçam-na!
"Quanto mais eu te vejo/Mais eu te quero/De alguma maneira esse sentimento/Só cresce e cresce/Com cada suspiro/Eu me torno mais louca por você/Mais perdida sem você/E é assim/Você pode imaginar/O quanto amo você?/Quanto mais eu te vejo/Ao passar dos anos/Eu sei que o único/Só pode ser você/Meus braços não te deixarão livre/Meu coração nem vai tentar" (Harry Warren)

Volto daqui a um tempinho - 20 dias de férias, um pouco mais...
Responderei a todos com carinho
FUI
Presentaço da minha amiga Graça do blog Zambeziana. Te adoro!!!

A beldade aqui só poderia ser a lady Rachel Welch...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Meu vizinho - Suas flores

Elas não são daqui. Conheço as flores, as poucas, que vicejam por essas bandas. Mas insistiram em cair com suas pétalas descoradas sob os reflexos da canícula solar.
Ninguém as colheria ou as ofereceria aos seus enamorados. Recusadas flores, rejeitados amores, até vocês nascem com a sina do desamor e do abandono.
Para cima levanto os olhos e avisto o andar do prédio onde mora meu vizinho. Homem misterioso ou sonhador? Não sei,não o conheço.Ninguém, nesses dias áridos em que vivemos, quer saber de ninguém e cada qual no seu cada qual. Senhores feudais, isolados nos seus futurísticos "apês", modernosos e de gosto muito duvidoso.
Lançadas pelo vagabundo vento, elas me chegam ao acaso e vêm dar aos meus pés. Recolho flores tristes e a mim as ofereço...
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Música: "Correnteza" - Tom Jobim/Luís Bonfá
Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim,o nosso saudoso e amado Tom Jobim e que tem Brasil até no nome. Falar de Tom? Impossível. Afinal, o mundo inteiro o reverencia e Sinatra o chamou para parceiro. Ele aceitou e aqui foi até acusado de vendido. No Brasil, fazer sucesso e ganhar dinheiro(honestamente) é considerado crime hediondo.
Detalhe sobre sua sensibilidade e caráter: quando Vinícius de Moraes faleceu, Tom pegou suas roupas e começou a usá-las. Questionado por isso, respondeu que não tinha nada demais em usar as roupas de um amigo. O nome para isso? Suponho que seja Amizade.
A "Garota de Ipanema" de ambos, melodicamente, recria o movimento das ondas do mar.
Nos últimos anos formou um conjunto com,nada mais,nada menos,um casal da famíla Caymmi (Danilo e esposa) e ainda Paula Morelenbaum,mulher do grande maestro Jaques Morelenbaum e intérprete de voz afinadíssima.
Vamos nessa, Maestro Tom Jobim?
"A correnteza do rio vai levando aquela flor, o meu bem já está dormindo zombando do meu amor..."

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Segredo do Universo Borgiano

Essa casa em ruínas...

Percorro esse quarto na penumbra tendo como companhia Jorge Luiz Borges e por ele me aflijo, por isso o pânico. Afinal, foi o conto que li daquele velho bruxo argentino em um tempo perdido entre sonhos e alfarrábios que levou-me ao caos existencial. A realidade querendo nos despertar. Aperto-lhe a mão fria e ausente. Ele a retira da minha e ordena-me que não o toque.
- Não posso, Borges!
Borges afasta-se e grita-me lá do fundo que encontrou o segredo. Insisto que não há segredo algum. Estou amuada com a sua estúpida insistência. Louco! Louca fui eu ao acreditar em seu realismo fantástico e desproporcionalmente belo.
- Veja o tigre sobre a mesa, não distorça tudo, atente para as suas manchas. Nelas está inscrito o segredo universal. Você não vê porque não é cega e só nós, os cegos e poetas, podemos enxergar algumas verdades e até...
- E até? Conclua, vamos!
-...até a verdade de amar...
- Porém, considere a possibilidade de que Deus não possa gostar de você...
- É verdade, amigo, ele nunca gostou. Jorge Luiz Borges, mesmo cego, criou uma obra extraordinária que ajudou a difundir a cultura latino-americana.
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SÓ PARA OS MUITO ROMÂNTICOS...
"Nada pra mim" com Ana Carolina

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Encontro no Shopping

Cristiano Navarro estaciona no Shopping, paga o flanelinha que o trata por "doutor", ambos já são conhecidos e se dão bem, a mão do rapaz bem vestido acaricia a cabeça do menino.
Aniversário de Myrna, precisa escolher o presente da namorada. Entra na joalheria, examina as jóias no balcão, a vendedora tenta convencê-lo a levar um anel, mas ele não se interessa por nada e sai sem comprar.
Percorre os corredores sob luzes feéricas, observa os passantes. Uma jovem, Teci, vem vindo em sua direção, suas ancas mostram um certo requebro e seus fartos seios balouçam dentro daquele vestido estampado. Na mão direita, um sorvete que leva aos lábios. Passam um pelo outro. Um rastro com aroma de vetiver fica no ar. O homem pára e gira o corpo sobre os calcanhares indo ao encalço da jovem enquanto procura em sua mente uma desculpa para abordá-la.
- Por favor, senhorita!
- Hã, o senhor...
- Tudo bem, é que estou com dúvidas sobre um presente que tenho que dar para minha...tia (ele resolve mentir), poderia ajudar-me a escolher?
- Não sei, talvez...
Olhos negros e langorosos, pestanas espessas, Teci o enfeitiça de imediato.
- Calor, vamos tomar um suco? Ele a convida.
Ela aceita o convite, mas com alguma hesitação, e o assunto começa pela provável escolha do presente e desvia-se. Ambos estão a se observarem mutuamente. Ele conta sobre suas viagens internacionais, lugares exóticos e ela sobre sua faculdade de veterinária. Telefones trocados e a estonteante beldade afasta-se no natural balanço dos seus vinte anos em flor.
O presente da namorada, recupera-se Cristiano.
Secretária da empresa, Myrna mostra-se sempre atenta e minuciosa em todos os detalhes, mas em casa, com tanto o que fazer, mal consegue livrar-se do terninho cinza que lhe comprime o corpo.
Cristiano chega ao apartamento e a suspende no ar com um abraço de tirar-lhe o fôlego.
Suspiros e uma queixa sussurrada ao ouvido de Myrna:
- A roupa está atrapalhando, meu bem...
Amantes atrapalham-se sempre, o amor nunca chega na hora certa e nos surpreende quando menos esperamos. Roupas e o presente comprado às pressas vão parar num lugar qualquer, lugar onde os que se amam nunca se importam onde irão encontrá-los depois.
Manhã seguinte, o jovem executivo, no seu escritório do décimo andar, encontra o guardanapo onde escrevera o número do telefone de Teci.
- Alô, Teci está?
- Pode falar, sou eu mesma...
- Posso te encontrar hoje à noite? Vamos jantar?
- Puxa, desculpe-me, mas hoje vou sair com meu noivo. Responde Teci suavemente, mas com firmeza.
Ducha de água gelada cai sobre a cabeça de Cristiano que se recusa a ouvir um não. Não, não vai ficar sozinho àquela noite, decide-se no íntimo.
Liga para a boa e obediente Myrna:
- Querida, comprei umas entradas para um espetáculo de dança, aquele grupo de tango que você queria assistir...
Myrna interrompe-o, impaciente.
- Não vai dar! Estou saindo agora, vou viajar.
- Para onde? Quer saber.
- Te conto na volta, tchau! Desliga sem mais explicar.
Cristiano olha ao seu redor, está desolado. Vai até à cozinha, toma alguns copos de vinho, volta ao quarto, deita-se e chora. Ou vocês acham que homem não pode chorar? ____________________F I M____________________
MAESTRO ALEJANDRO SANZ CANTA...
Um dos maiores compositores e intérpretes da música Flamenca de todos os tempos, chegando a trabalhar com o não menos talentoso Paco de Lucía.
"Corazón Partío" espalhou-se feito rastilho de pólvora que incendiou todas as platéias do mundo. Ouçam e abram o vídeo para o ritmo e a dança de Alejandro, um colírio para os olhos.Esse espanhol me causa arrepios!

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Uma lenda sufi...

A Árvore da Vida - Gustav Klimt

O Imperador convocou todos os artistas plásticos do seu reino - os melhores. Enviou também um convite aos gregos que o aceitaram prontamente.
Chineses e Gregos, todos artistas famosos e renomados, foram presos num quarto dividido ao meio por uma cortina. Dias depois, a porta foi aberta. O Imperador e sua comitiva adentraram o ambiente e, num gesto todo cheio de pompa, o mesmo afastou o tecido vagarosamente. Um murmúrio de deslumbramento foi tomando conta do recinto. Na parede onde os artistas chineses trabalharam haviam pássaros do paraíso, flores raras, um céu com seus astros dispostos com perfeição, enfim, uma pintura inigualável, sem um mínimo defeito sequer. E o que havia do lado oposto que pertencia aos gregos? Apenas uma parede totalmente polida. Sim, os gregos transformaram a parede num magnífico espelho que refletia toda a soberba beleza da Arte Chinesa. O Imperador não teve um momento de hesitação, concedeu a vitória aos Gregos e com a seguinte honraria:
"Aquele que sabe refletir a beleza do mundo e tudo o que nele há, esse, sim, será digno de ser ouvido e reverenciado."

Tomaz Lima, o "Homem de Bem":

Musicoterapeuta, interpreta os milenares mantras indianos com toques ocidentais onde mistura os sons do sitar, saxofone, cordas, mridangem, cuíca, flautas, oboé, harpa, charango e darbuka. Preciso dizer mais?

quarta-feira, 24 de março de 2010

Estrelas nas noites de Van Gogh...

REMETENTE: Rachel


DESTINATÁRIO: Vincent Willem Van Gogh

"Vincent querido,


Faz tanto tempo e nem sei por onde começar. Olho para o firmamento só para ver as constelações que pintavas, elas ainda cintilam, mas o homem apagou-se da minha existência.
Não consigo conter essa dor da tua partida repentina, sem um beijo ou um adeus. Gostaria de não relembrar-me das tragédias e brigas na casa amarela onde você e Paul Gauguin moravam.
Horrendo foi o instante em que me entregastes o lenço sanguinolento com a tua orelha decepada. Por que para mim? Foi o absinto, eu sei. Foi o desespero da solidão, eu sei. Não encontravas um caminho e caíste no sombrio abismo dos comedores de batatas. Estudavas a Bíblia para salvar almas, mas já estavas perdido.Sonhavas em ser um pastor, mas onde foram parar tuas ovelhas?
Tivemos bons momentos, meu ruivo amado. Por vezes, ficavas a desenhar no ar, com as mãos, as paisagens de Rubens, teu preferido. Confesso que não entendia os teus arroubos, apenas adivinhava a tua paixão incendiária no teu magro peito. Magros, éramos dois famintos que vivíamos às expensas de Theo, o caridoso irmão.
A barba por fazer, a cama tosca onde, nus, nos entregávamos ao prazer dos miseráveis. Dizias com ciúme que eu tinha outros, era verdade. Só te esquecias que tu foste o único que amei em silêncio, pois nessa vida que levo, não devo ousar amar. Chamam-me de prostituta, assim morrerei, foi meu destino.
Gachet, teu médico, não me deu certeza da tua recuperação, mas peço por ti em minhas orações.
E assim, sem saber se essa missiva chegará às tuas mãos manchadas pelas tintas, já estou me despedindo. Despedida definitiva, a tuberculose invade meus pulmões.
Só pretendo mesmo te dizer, Vincent, que nunca, nunca vou te esquecer...
Tua,

Rachel"



É ficção, minha gente! Essa carta nunca existiu. Motivos para fazer a postagem: Van Gogh nunca foi reconhecido em vida e jamais alcançou o amor das mulheres. Além do mais, meus ancestrais eram holandeses provenientes de Zundert na Holanda. Mais ainda, Aldoux Huxley reconheceu a transcendência metafísica na cor amarela que o pintor deixava explodir em suas telas.
Em "Sede de Viver", o filme que traça as biografias dos dois grandes, Van Gogh e Paul Gauguin, contamos com as interpretações marcantes de Anthony Quinn e Kirk Douglas e, de quebra, uma trilha sonora esplendorosa. Vincent merece!

Starry, Starry in Night...a música...


Estou tirando uns quinze dias ou mais para cuidar da vida real. Vai tudo bem! Não se preocupem!

Responderei aos comentários que porventura receber com o carinho e respeito de sempre...
As tulipas do Dr. Clusius não poderiam faltar aqui - ele foi o primeiro médico a fundar a primeira Universidade de Medicina do mundo e na Holanda. Os célebres Países Baixos da monumental engenharia dos diques para conter o avanço das águas são também um grande exemplo da luta de um povo por sua nação.

terça-feira, 16 de março de 2010

Uma Ilusão à toa...

Aquela cena nunca me sairá da cabeça. A orla marítima iluminada, tal como um cordão de luzes, contornando Copacabana. Os automóveis zunindo pela pista larga. Volto a cabeça para o lado e meu olhar recai sobre um jovem casal.
Ele, sem mais nem menos, toma de súbito sua namorada nos braços e assim, driblando a morte, atravessam a avenida. O perigo não intimida aos que amam, fui testemunha.
Uma brisa do mar soprou sobre os cabelos da menina e ela, de olhos fechados, enovelou-se mais ainda ao pescoço do namoradinho.
Nunca saberei se aquele momento não passou de uma ilusão à toa...

A cena existiu, mas a usei como um bom pretexto para falar de Johnny Alf (1929/2010), cantor, professor de piano e um compositor muito acima da média, expoente máximo da Bossa Nova. Homem muito discreto, faleceu aos oitenta anos em um asilo em São Paulo.
O seu legado artístico-musical irá soprar sobre nós com o frescor de uma brisa marítima. Alusão a "Eu e a Brisa", uma perfeição, Obra de Mestre.
Escolhi "Ilusão à toa" por uma questão de afinidade pessoal. Será interpretada aqui em dueto com a exuberante intérprete, Fafá de Belém.
Sintam-na com toda a alma e o coração!

"A conduzir o nosso amor discreto..."

sexta-feira, 5 de março de 2010

Monólogo com a minha cidade...

Essa é a minha cidade,

Aquela que penso conhecê-la como a palma da minha mão.Viu-me crescer e, pouco a pouco, acabou se transformando em algo que não mais reconheço e não mais me reconheço nela. Ruas, viadutos, prédios altos, concreto pesado sepultando o verde. Restou um único florista onde se compravam as mais atraentes rosas-chá. Ficou ainda a lojinha de tecidos finos bem espremidinha. Ali, na avenida principal. Quem compraria tecidos finos, hoje? Os jeans invadiram a área. Adeus às sedas, brocados e linhos, adeus...
Falo e não posso me esquecer de citar as calçadas cheias em dias de pagamentos mensais e uma massa de gente apressada que não nos cumprimenta, nem deveria, antes se lança sobre nós num pugilismo suado, sem charme, sem perfume e, muito menos, sem poesia. Ninguém meteria poesia nessa encrenca de camelôs, travestis, garotas de programas e uns tantos aposentados, mesmo a todos amando, busco pela gentileza que se foi.
Choveu demais, o bueiro entupiu e sobras de tudo vagueiam feito navios fantasmas no sujo mar. Mar da minha cidade que nunca o terá.
Restou a praça que, um dia, disseram que ao povo pertencia. Entulham-se os carros da classe média - afundada em dívidas - pelas calçadas, vistosos, brilhantes, entulhos de lata. Avisto alguns arbustos que, sem dúvida, serão destroçados pela companhia elétrica por ameaçarem eletro-domésticos comprados a prestações e mais úteis que o oxigênio que ainda é gratuito.
Conte para mim, minha perdida cidade no recôndito da minha mente mediúnica o quanto juntas sofremos, no passado e no presente, o futuro não virá, eu sei. Faremos esse acordo tácito e lhe mostrarei as cicatrizes dos tombos e escorregões nas cascas de bananas no meio do caminho que trilhamos. Como doeu e ninguém notou, ninguém chorou, nem por mim, nem por você. Pois é, eu sei que você vai me ouvir, só você...

As Vitrines...


Canta, Chico!

Nossa Homenagem ao Dia Internacional da Mulher - presente do amigo Edu .Obra do genial Edgar Degas que gostava de valorizar a mulher no seu dia a dia. Obrigada, meu gentil amigo!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sempre - Vivas

Periodicamente, os campos coloridos de sempre-vivas são tomados por grupos de crianças que, com suas pequenas mãos, vão colhendo-as, uma a uma. Poderia ser um um quadro bonito e harmonioso caso não se tratasse de um velho fenônemo chamado evasão escolar. Crianças abandonam suas escolinhas e complementam "a renda familiar" na busca frenética por essas delicadas florzinhas. Seus pais, assim como os filhos, são os chamados bóias-frias. Trabalham pelos campos por um breve tempo e recebem seus salários. Depois, deitam-se no chão de barriga pra cima e vazia, apenas para sonhar...
É verdade,por incrível que pareça, eles também sonham. Sonham com bobagens, tipo comida, tipo amor, tipo educação, tipo saúde, inutilidades.
Portanto, ao fazermos nossos elegantes arranjos florais é bom termos em mente que ali há gotas secas do sangue de algum pequenino descuidado. Essas gotas darão, com certeza, um certo toque exótico que faltava. Vai ficar lindo, experimente.
Falei em trabalho escravo infantil? Claro que não!
Eles recebem seu naco e são enterrados em covas incógnitas, por aí...
No "Rancho da Goiabada", Aldir Blanc e João Bosco contam melhor essa história. Hoje é a eterna Elis quem vai cantar. Vamos nessa?

Recomendação:

Leiam o Estatuto da Criança e do Adolescente onde o trabalho infantil está expressamente proibido. Cumpramos, pelo menos, a Lei, já que a sensibilidade se encontra em franca extinção.