sexta-feira, 13 de março de 2009

A BRUXA DO LABIRINTO: SEXTA-FEIRA 13

BOM TEMA PARA UMA SEXTA-FEIRA 13, QUEM ACREDITA?KIKA-ZÁS E O SEU CALDEIRÃO DE MALDADES...

As ramagens verdejantes iam formando círculos concêntricos que, aos poucos, se perdiam em estreitas trilhas e essas indo parar em becos sem saída.O LABIRINTO DE ONDE POUCOS CONSEGUIAM FUGIR COM VIDA E DIGNIDADE...

O perigo ali não residia nas sendas tortuosas dos arbustos, porém na existência de uma estranhíssima habitante do local que, por sua habilidade em criar sortilégios de magia negra, ficara celebrizada (triste fama essa) com o apelido de Kika-Zás.
Bento trazia todos os detalhes na memória e, por ser pai de uma menina muito curiosa, procurava até "carregar nas cores" e nos detalhes terríveis dos acontecimentos.
- Pai, em que a Kika o transformou? Começou ela...
- Fui um rato, minha filha, aliás, um dos ratos, pois todos os que ela encontrava não escapavam dessa praga. Passei minha juventude em tocas fétidas e esgotos até que, um dia, me bateu a idéia mais luminosa da minha vida: destruir seu jardim das hortências. Não que odiasse essas exuberantes flores, mas pelo fato dela esconder sob a terra seus talismãs e bruxedos. Daí, arranquei, raiz por raiz todas as falsas flores do seu jardim do mal.BENTO TRANSFORMADO EM RATO...

- E a mamãe? Ela a odiava também?
Bento empalideceu, mas prosseguiu:
- Sua mãe foi aterrorizada por ela até o dia em que consegui libertá-la. Posso contar isso outro dia?
- Não. A resposta foi certeira. Quem já conseguiu enrolar uma criança? Ninguém, óbvio.
- Certo, certo, Marcinha! Sua mãe foi vítima da inveja dessa bruxa e dos seus necromantes, unicamente porque possuía um roseiral à frente da sua casa. Foi inveja da Kika, minha menina! Os vizinhos ao redor começaram a comparar e a preferir as rosas de Isaura e não as hortências de Kika. Na verdade, para os invejosos, a motivação pode ser trivial, mas a vingança é feroz.O JARDIM DE ISAURA QUE KIKA-ZÁS INVEJAVA...

Fui atraído à casa da bruxinha com um falso convite para uma festa e lá bebi um dos seus "filtros" em taça de cristal, deixei-me levar pelas aparências, também me culpo por tudo. E mesmo transformado em asqueroso roedor, pude infiltrar-me na masmorra onde sua mãe se encontrava prisioneira e roí as cordas que a prendiam, libertando-a para sempre.
Marcinha, a essa altura, já queria ouvir o fim da história:
- Pai, pai, a Kika morreu?
Aqui, Bento preferiu não mentir:
- Não, filha, as bruxas são como vírus, elas se encapsulam e até aparentam "ser boas". Nós, os humanos é que precisamos ser vigilantes e necessitamos criar os antídotos e defesas contra o mal. Dormir com um"olho aberto e o outro fechado" - ele sorriu sem querer - deu pra entender? A menina também abriu um sorriso bem maroto.
- Continuando, fugimos pelo denso labirinto onde ouvíamos uivos e sombras gigantescas que surgiam ao nosso lado, daí encontramos um velho lavrador que... mas a garotinha já dormia.
O esposo voltou para o quarto onde Isaura o aguardava. Estavam a salvo!

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" Dona Lurdinha, escondida atrás do coqueirinho, vá cuidar da sua vidinha e me deixe cuidar da minha!" (Miguel Falabella)

- Pois é, sabe que o Miguelito tá certo?

O recadinho foi necessário, pode crer!!!

domingo, 1 de março de 2009

Curitiba, o Primeiro Amor...

A estrada verde e os pinheirais não tinham fim, mas Curitiba estava próxima. Chegamos à rodoviária velha.
O "povo do frio" e sua propalada elegância me atraíam; havia um desfile colorido de gorros, cachecóis e até luvas pelas calçadas onde damas exibiam sua beleza nórdica-brasileira. Encantador esse país continente, não acham? Frio e Calor convivendo num mesmo idioma.
Entrei numa loja de departamentos e fui comprando, sem olhar o preço, um casaco verde-musgo que combinava com minha cabeleira bem negra. Voltei ao Hotel Mafra, fui subindo a escadaria gasta que rangia. Cheguei a um quarto amplo, limpíssimo e com inúmeos cobertores e edredons. O frio era intenso, mas havia a luz natural que se espargia através da janela escancarada. Detive-me no parapeito de onde podia divisar uma casinha azul de madeira e... um habitante masculino muito especial.
O rapaz de sobretudo cinza e madeixas douradas grudou-se na minha imaginação e eu já fantasiava, namorando-o. Adolescente, meus amigos, tudo nessa fase TEM que acontecer como nos sonhos. Não acontece, sabemos.
Foi no Café da esquina, pela manhã, ao pedir ao garçom aqueles deliciosos pãezinhos crocantes que percebi a presença de Juliano: tremi, mas não foi de frio, lhes garanto!
Juliano viu-me sozinha e veio ao meu encontro com um sorriso inocente e poderoso, me desarmou...
- Você não é daqui? Perguntou-me logo.
- Sou do Rio. Respondi-lhe, forçando desenvoltura, estava confusa por dentro e não me perguntem o porquê.
- Quer sentar-se comigo? Bem, titubeou propositalmente, se não tiver algum compromisso. Sorriu de novo. Fui levitando até sua mesa. Depois daquele longo café, guiou-me até os pontos turísticos da cidade e cedemos às primeiras carícias, as mais ingênuas, pra começar, aquelas do ABC dos jovens que tateiam na penumbra da paixão, escondidos do mundo, escondidos de si mesmos...
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*Conto minimalista (ficção).

*Só queria falar da Curitiba que conheci na adolescência. Infelizmente, o Juliano não existiu.

*Agradeço a todos!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

100, SEM CARMEN MIRANDA

1955

O céu de verão, tão azul, protegia uma criança distraída no seu mundo de fantasias, a brincar no quintal de um bairro do Rio. O mundo das formas, das pessoas adultas e das coisas estavam dela distantes.
Um som repentino corta o vácuo e as ondas de rádio lhe trazem uma voz tonitroante de um homem, seria um deus? Não, era o locutor Heron Domingues.
"- Alô, alô, Repórter Esso, alô!"
"- Urgente, queremos comunicar ao Brasil que a cantora brasileira, Carmen Miranda, acaba de falecer de um infarte fulminante em sua casa nos Estados Unidos..."
A criança se assusta, mas permanece brincando. O tempo escoa, parece lento, mas rápido passa. O quintal não mais existe e o brinquedo quebrou-se...
Carmen foi a mulher que todos supunham imortal e que não tendo suportado o peso de ser "deusa" teve seu coração estilhaçado pela dor e sucumbiu.
Os últimos momentos não foram do mito, mas de Maria do Carmo Miranda da Cunha, nascida portuguesa, mas trazida ao Brasil muito menina por sua mãe e irmã, Olinda, pobre Olinda que morreu tuberculosa. O pai, barbeiro, veio na frente e se estabelecera no Rio para garantir-lhes uma chegada mais confortável. Mas Maria do Carmo não viveria seus primeiros anos só de confortos. Trabalha em fábricas de gravatas e numa chapelaria. Por acaso, foi nesses ambientes fabris que nasceu a dedicada artesã de turbantes monumentais e indumentárias bordadas pelas próprias e pequenas mãos calejadas? Tenho quase certeza que sim.
Maria do Carmo virou Carmen por sugestão de um tio, apaixonado pela ópera Carmen de Bizet. Bem, que ela "vestiu" a baiana estimulada por Caimmy e levou seus balangandãs além das nossas fronteiras, isso não se discute. O dinheiro veio aos borbotões e o desencanto também.
Politicamente discutida até hoje como marionete da tal "política da boa vizinha" (boa para quem? Já sabemos hoje), Maria do Carmo, assim como a garotinha do quintal do bairro de subúrbio do Rio, só queriam brincar, uma para si mesma, a outra para os outros. A primeira viveu para contar um pouco da segunda que virou mito e, mesmo assim, se desencantou com o complicado mundo da fama. Ela penou duplamente: com a "culpa do sucesso internacional" e com a frieza dos ricos que frequentavam o Cassino da Urca. O samba "Disseram que Voltei Americanizada" assim nos demonstra, embora o temperasse com muito humor e picardia. Já estava ferida de morte!
Em 1972, a Serrinha, favela simpática de Madureira, explodiu na avenida com "Alô, Alô! Taí Carmen Miranda". O IMPÉRIO SERRANO desfilava mostrando ao Brasil sua Pequena Notável:
"Uma Pequena Notável / Cantou muito samba / É motivo de carnaval / Pandeiro / Camisa listrada / Tornou a baiana internacional / Seu nome corria chão / Na boca de toda gente / Que grilo é esse / Vou embarcar nessa onda / É o Império Serrano que canta / Dando uma de CARMEN MIRANDA / Cai, cai, cai / Quem mandou escorregar / Cai, cai, cai / Eu não vou te levantar..."
A gaúcha e brasileiríssima, Elis Regina, imortalizou esse samba-enredo na sua voz inigualável.
Enganam-se aqueles que pensam que essa é uma história de carnaval, essa é a minha história que o destino cruzou com a de Maria do Carmo...

100 ANOS DE NASCIMENTO DE CARMEN MIRANDA:
"Taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim / Ai, meu bem / Não faça assim comigo, não / Você tem / Você tem / Que me dar / Seu coração..."
SEU CORAÇÃO É NOSSO, CARMEN!

Carmen, no apogeu da sua carreira

Homenagem, politicamente discutível, à "República das Bananas"

O casamento com o americano David Sebastian

A artesã humilde que consegue subir com os seus próprios dotes artísticos

A casa onde nasceu em Marco de Canaveses, Distrito do Porto, Portugal

Carro alegórico do desfile apoteótico do Império Serrano em 1972

Museu Carmen Miranda no Aterro do Flamengo, Cidade do Rio de Janeiro

Mausoleu onde foi sepultada no Cemitério São João Batista, Rio de Janeiro

Chora Pierrô

Chora

Eu sei que a

Tua Colombina já

Foi embora...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

INOCÊNCIA PERDIDA

VIRGINDADE FEMININA> UM VELHO E NOVO TABU > A HISTÓRIA AQUI RELATADA, INFELIZMENTE, NÃO É FRUTO DA MINHA IMAGINAÇÃO, MAS DE UM TOLO E MACHISTA PRECONCEITO AINDA ARRAIGADO EM MUITAS MENTES ESTÚPIDAS...LAMENTÁVEL! SERÁ QUE É ASSIM QUE CONSTRUIREMOS UM MUNDO MELHOR?



A calçada estava úmida e perfumada. Quem estivesse logo atrás, veria uma jovenzinha de cabelos claros, corpo de manequim, mas praguejando e lançando jatos de perfume pelo chão. Se, mais próximo, esse alguém se aproximasse, ouviria:
- Ele me paga!
- Meu Deus, perdi minha virgindade, o que digo em casa?
- Ele me enganou, me prometeu até casamento!

- Desgraçado!
Ingrid, era filha única e vivia modestamente com sua mãe doente em casa de aluguel. Porém, sua beleza física se constituía num foco de atração constante para o sexo oposto, atiçando o desejo de todos os homens que dela se aproximavam.


Dr. Edgar, empresário e casado (ela não sabia disso), após deleitar-se com aquele corpo jovem, levanta-se repentinamente e sentencia:
- Acabou, Ingrid! Minha mulher descobriu tudo...
Antes de sair, o empresário, abriu sua maleta de executivo e de lá sacou um embrulho em papel e fita coloridos, era um frasco de perfume barato. O "presente" foi lançado sobre a cama e a moça, aturdida, não pronunciou palavra.
Rua perfumada e Inocência Perdida, quantas "Ingrids" ainda virão?
Adeus, vestido de noiva!


Adeus, festa de casamento!


Adeus...
FLORES DE LARANJEIRA: símbolo da pureza virginal no casamento.
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SELO DA AMIZADE: OBRIGADA, ANA!


SELO CORAGEM: DA ANA, VALEU!



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COMEMORAÇÃO MERECIDA DO BLOG "BRINCANDO COM ARTE" DA NOSSA BRILHANTE AMIGA CRISS, PARABÉNS!

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

RENNÉ, PIERRE E... DALILA

CONTO> DEDICADO AOS QUE SOFREM PRECONCEITOS NAS SUAS PREFERÊNCIAS AFETIVAS...


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Garçonete maluquinha, Dalila não parava em emprego. Não parava até que foi bater na porta de uma casa noturna, no gueto mais "mal afamado" da cidade. Lugar maldito, bastante execrado pelas "pessoas de bem", pelas famílias de tradição moral ilibada. Mas, que diabos! A moça precisava sobreviver. O lugar tinha lá seu charme; as cores eram berrantes, mas não destoavam entre si, havia mesmo um certo bom gosto; os espelhos e brilhos pontificavam por ali, aliás muitos brilhos, daí o apelido popular de "inferninho da purpurina". Seus proprietários e sócios, Renné e Pierre eram de origem européia, já aclimatados no Brasil. Eram dez horas da manhã e lá estavam à espera da pessoa que lhes telefonara no dia anterior se anunciando para a entrevista. Renné, ao contrário de Pierre, demonstrava mais uma natureza descontraída, porém não era do tipo fútil. Sua linguagem se mostrava determinada, não se preocupava muito em escolher as palavras, não chegava a ser agressivo, apenas falava sem pensar. Seu aspecto físico daria um capítulo à parte: olhos claros, cílios espessos e vasta cabeleira até os ombros, era extravagante, sim, mas não era feio, exuberantemente belo, havia quem gostasse! Pierre, completamente o oposto do amigo em todos os sentidos. Aparentava mais maturidade que o primeiro, embora fosse um pouco mais jovem. Cabelos naturalmente claros, curtos, aparência mais elegante e roupas de estilo clássico. Seu temperamento era reservado, observador, arguto, conhecia muito bem os meandros da difícil natureza humana. Fora psicólogo, entretanto, as Artes Plásticas o haviam transviado do caminho que traçara sua tradicional família. Bem, caro leitor, feitas as devidas descrições de praxe, voltemos àquela manhã de verão quando Renné e Pierre resolveram contratar aquela menina. Manhã de ressaca, cansaço, daí um certo desinteresse por aquela adolescente magricela, porém dona de um sorriso contagiante. Sorriso esse que não surtira o mínimo efeito no âmago dos notívagos futuros patrões; esgotados por suas noitadas. De tão motivada que estava, ela mal prestava atenção nas explicações e detalhes do seu novo emprego. Encerrada a rápida entrevista, Dalila, simplesmente, pegou da vassoura, balde e espanador saindo a limpar tudo que encontrava pela frente e o fazia com energia e muita disposição. Nunca vira um ambiente como aquele e tudo ali lhe trazia deslumbramento, principalmente os quadros e painéis das paredes em locais estratégicos.A maior parte deles sugeriam carícias entre casais de ambos os sexos, homossexuais, enfim. Nada naqueles quadros indicava pecado ou culpa, eram deuses do Olimpo se amando, eram ninfas nos bosques se tocando, nuas."- Os seres humanos são muito estranhos", pensou Dalila, espanando também esse pensamento. Afinal, não estava ali para formar opiniões sobre o que quer que fosse.E lá se foi, cantarolando velhas canções que a mãe lhe ensinara, cuidando das esculturas sensuais, esfregando os mármores, varrendo o chão, encerando... O dia transcorrera normal; pessoas entrando e saindo do bar, absorvidos em beber e conversar, sendo que, à medida em que a luz do sol refluía, lentamente, o luar, a noite, ia trazendo mudanças, tais como as estranhas luzes surgidas do interior de refletores escondidos: luzes fortes que se cruzavam, ora vermelhas ,amarelas, violetas... transformações maiores se davam no comportamento da clientela da Boate " PINK FOREVER ". Casais que ali adentravam começavam a assumir outros comportamentos; homens musculosos com tatuagens pelo corpo juntavam-se em grupos e , por vezes, se acariciavam, trocavam beijos na boca, alguns sentavam-se nas pernas uns dos outros.

Eram homossexuais, talvez até bissexuais... e tudo acontecia sob o beneplácito dos proprietários, pois aquele espaço, sem dúvida alguma, havia sido criado para aqueles que, socialmente discriminados, não teriam onde, com tranquilidade e desenvoltura exercerem seu direito a uma espécie de sentimento condenado socialmente. Surpresa e boquiaberta, Dalila tentava passar pela pequena multidão carregando uma imensa bandeja de bebidas; foi então que deparou-se com os patrões, elegantemente trajados nos seus ternos claros. Mostravam-se outros, aparentavam até serem mais jovens, exalando dos seus corpos fragrâncias raras, almiscaradas; estavam sensuais e cativantes com seus fregueses que tratavam como amigos. O trabalho prosseguia e a pobre garçonete passou a aceitar tudo com imensa naturalidade, não só pelo instinto de sobrevivência, também por entender a situação daquela gente que, de uma forma ou de outra, não tinha culpa por serem assim - Dalila, embora humilde, possuía uma boa instrução e discernimento - e ela, como mulher, teria encontrado "facilidades" na vida? Seis meses já se passaram e seu dia a dia estava transcorrendo bem: trabalhava, estudava pela manhã e ia dormir num dos cômodos cedido pelos patrões, quarto confortável, onde lia e ouvia músicas, pois, fora criada pela mãe, cantora semi-profissional que lhe inculcara o gosto tanto pelo clássico como pelo popular. Certo final de noite, quando a casa já se esvaziara, Renné toca-lhe amistosamente o braço e pede-lhe que o acompanhe. Seguem por um corredor estreito nos fundos do estabelecimento, não muito longo, mas o suficiente para que pensamentos sombrios começassem a passar-lhe pela cabeça:- O que vão querer de mim agora? Serei despedida? Abuso sexual? Sentia-se indefesa, como reagiria? Continuou silenciosa a seguir Renné que estancou em frente a uma porta de madeira bem entalhada e pesada onde o segundo chefe (Pierre) já os aguardava também.O mesmo puxou de uma chave no bolso e abriu a pesada porta que rangeu de imediato.Um cômodo espaçoso surgia ali numa semi-escuridão.Sombras de "pessoas paralisadas" e um mobiliário escuro surgiram para os olhos arregalados de assombro da funcionária. Mas, um estalido do interruptor sendo ligado pelas mãos de Pierre lançou luz sobre aquele novo mundo que se expunha aos olhos, agora, admirados de Dalila: estava ali, ao alcance de sua vista, uma série de manequins (por certo as sombras humanas que divisara); mobílias, a maior parte armários e cômodas; lindas penteadeiras com muitos perfumes e maquiagens sobre as mesmas, além, de um fio de metal contendo cabides de roupas, as mais finas e bem tratadas possíveis.Tudo, mas, tudo ali estava muito limpo, organizado, nada fora de ordem ou destoando.Renné, mais falastrão, quebrou o silêncio: - Aqui está, minha querida, o nosso "laboratório de transformações", seja benvinda e sorria com gosto ao falar, deixando à mostra dentes grandes, claros, bem cuidados. Pierre, bastante reservado, apenas observava as reações de Dalila demonstrando também bom humor e contentamento, sendo agora a sua vez de tomar a palavra: - Diga-nos, Dalila, você está disposta a subir outro degrau em sua vida? Mas, nossa heroína parecia estar ausente, ou melhor, com a sua atenção voltada para "algo" mais interessante...uma enorme e variada coleção de perucas.Repentinamente, uma frase incoerente lhe sai da garganta: - Eu sempre sonhei com elas...e essas aqui são esplêndidas! Parou de falar e passou a viver um monólogo interior ( com elas eu poderia ser várias mulheres: seria loura, ruiva, morena, moderna, sofisticada...), mas, de repente, se deu conta de si e viu os olhos dos seus dois interlocutores cravados nos seus e respondeu, finalmente, sem grandes relutâncias: - Sim,preciso de mudanças na minha vida, o que os senhores me propõem? E ambos, quase simultaneamente, responderam: -Você será nossa nova Estrela na boate, será nossa cantora.E, sem mais delongas, Renné saiu em busca de toda a sorte de vestuários, maquiagens e, obviamente, das perucas que tanto encantaram a nova artista da casa.Já não estava ali mais a empregadinha e sim uma sedutora mulher de olhos brilhantes de lábios rubros e pele corada, macia; vestiram-na com vários vestidos, echarpes,chapéus e sapatos, sandálias altas, tornando-a uma mulher de alta estatura. O ambiente tornou-se efervescente, e agora, os três quase falavam ao mesmo tempo, entretanto, Pierre, com sua voz pausada e um leve sotaque francês fez-lhe uma explanação séria da situação: - Dalila, nós tomamos essa decisão baseados principalmente em dois aspectos:primeiro, precisávamos reformular, reciclar nosso trabalho. Pretendíamos contratar uma cantora conhecida, famosa e, por fim, chegamos à simples conclusão de que já tínhamos bem próxima a nós, você que passava as tardes cantando enquanto trabalhava; sua voz, melodiosa e afinada chamou a nossa atenção e depois de muito debatermos, eu e Renné concluímos por investirmos, jogarmos todas as nossas fichas em você. Os ensaios começaram e duravam horas a fio. Na maior parte eram músicas internacionais que se adequavam mais ao ambiente e à voz aveludada da moça.A propaganda de que Renné e Pierre descobriram uma nova beldade artística se espalhara como um rastilho de pólvora pela cidade, melhor ainda, indo além dos limites da mesma. Dalila não existia mais como antes, agora chamava-se Dally Mills e cantava como nunca para um público cada vez mais eclético, a classe média, os ricos, os preconceituosos, todos se renderam à beleza e talento da artista que exibia a cada novo espetáculo suas belas e extravagantes perucas.Dally Mills era múltipla, e mostrava-se por vezes como uma negra do Harlem, entoando seus Blues ou uma cantora de Bossa-nova, de franjinha à Nara Leão, cantando baixinho com um violão e um banquinho.Embora seus contratos fossem mais do que gratificantes, financeiramente falando, ela não deixara de ser a pessoa simples e alegre que sempre fora. Por trás do palco era a mesma Dalila de sempre e só não fazia mais faxinas porque seus amigos - e patrões - Renné e Pierre não lhe permitiam. Enviava, mensalmente, cheques com boas quantias para a família no interior e, agora, tinha uma missão mais Nobre a cumprir: auxiliar seus amigos com AIDS; aqueles que, muitas vezes, ela os vira musculosos e cheios de vida e, hoje, frágeis, alquebrados, precisavam do seu conforto, não só financeiro, como emocional e ela não lhes faltava, nunca. Passados dois anos de grande sucesso, Dalila, resolveu retirar-se da vida artística, já tinha o suficiente para sobreviver com dignidade e auxiliar os seus.As belas perucas, as jóias , ficariam apenas na lembrança e fotos. Pierre e Renné protestaram em vão, não buscaram outra substituta, prosseguiram na direção da boate, mas depois desfizeram a sociedade, foram viver em separado suas próprias vidas. Pierre não a esqueceu, pelo contrário, recorda cada instante em que conviveu com carinho e respeito para com aquela pessoa e artista dedicada, sensível e, principalmente, amiga, Dalila. Pensa em revê-la, falta-lhe coragem... o tempo corre. Um estaciona carro à entrada do prédio, um senhor de óculos, vestido com discrição dirige-se ao porteiro e pede para ser anunciado a uma certa senhora. A campainha toca, uma mulher vem atendê-lo e pede-lhe que aguarde apontando-lhe uma poltrona branca. Pierre olha ao redor: estilo despojado,vasos de plantas, todos floridos, enquanto um gato de pelo curto, tigrado, se espreguiça sobre o gasto tapete. Dalila não demora muito a chegar e lhe lança o mesmo grande sorriso que da primeira vez ele não notara, mas agora, esse sorriso é tudo do que mais necessita para prosseguir vivendo. Ambos abrem os braços e se lançam no maior espetáculo da vida: O AMOR... /// THE END ///

Obs.: Esse conto não foi feito para agredir ninguém, pois a meu ver, quem está seguro de si, nada tem a temer. Não há porque ignorarmos o homossexualismo, tanto masculino como feminino, pois através da História tivemos exemplos de vida de pessoas que nos deixaram seus legados culturais a despeito de suas opções sexuais. Querem alguns exemplos? SANTOS DUMONT / OSCAR WILDE / VIRGÍNIA WOOLF/FERNANDO PESSOA...a lista é imensa, todos sabemos e ainda temos os Filósofos Gregos e os imperadores romanos. Alerto também que muitos jovens, na atualidade, chegam ao suicídio mais pela força do preconceito do que pela sua forma de viver, errada ou não, não nos cabe julgar.

QUEM VAI ATIRAR A PRIMEIRA PEDRA???
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SELINHOS:
1-DA CRISS -> HALLOWEEN
2- AMIZADE_AMIGOS
3- BLOG_DE_OURO (PRESENTES DA EVA, ISA E ANA):

4-Mais selos do Amigo Olavo:

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O SUPÉRFLUO É NECESSÁRIO



O escritor e memorialista PEDRO NAVA, sem dúvida, sabia o que estava dizendo quando declarava que "as coisas mais importantes da vida são as supérfluas". Pensei essa idéia por um certo tempo, mas não demorei muito para concordar com o exemplar Homem das Letras Nacionais que revolveu toda a sua infância em livros memoráveis.
Estão me chamando de fútil? Tem problema, não! Deixa rolar...
Na verdade, a vida sem os pequenos apegos e "inutilidades" é um negócio intolerável, difícil mesmo de suportar: filas para tudo; contas para pagar; chefes para obedecer; sapos para engolir... hummmm, difícil engolir um sapinho, né?


Como são interessantes velhas lembranças sem valor algum!
São bonequinhas que guardamos da infância, são bijus usados com as contas desgastadas e que combinam com qualquer roupa - assim pensamos - tudo bobagem...



Não, isso não é só "privilégio do sexo frágil" (frágil? Eu disse isso?), pois os moçoilos também têm as suas esquisitices e só para ilustrar: será que ninguém conhece um certo tipo de marmanjo que coleciona carrinhos de brinquedo?
Aí, lá vêm psicólogos, terapeutas de plantão e especialistas no ramo nos falar das fases, oral, anal (cruzes!) e do tal "ludismo", algo assim, de ficarmos apegados à vida infantil, ao período lúdico das brincadeiras.
Por mim, só posso encerrar com um pensamento:
GENTE, NÃO NOS LEVEMOS TÃO A SÉRIO, A VIDA PASSA!!!
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PEDRO NAVA (1903/1984)
Grande médico reumatologista - centenas de artigos médicos publicados - que afirmava ter escolhido essa especialidade por ser "a única que não matava", esse Pedro! Rs. Entre suas muitas Obras de valor inestimável para todos nós, pontificam as que mais aprecio: "Balão Cativo" e "Baú de Ossos".

PARA PENSAR (Não vai doer):
"Com dez anos subi o nosso Caminho Novo para Belo Horizonte. Já tinha provado tudo que nasce com o contato com o semelhante. Amizade, Carinho, Ódio, Rancor, Ciúme, RUDIMENTOS DE AMOR..."
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ESPAÇO IMPORTANTE QUE RESERVEI PARA OS SELOS DOS AMIGOS:

1- OLAVO: "DÚVIDAS E CERTEZAS DE UM HOMEM DE 50"


SELO_ BLOG_ DO_ OLAVO

SELO ROSE_BUD
SELO BLOG_PRA_VOCÊ_COM_CARINHO

2- ANA: "PELOS CAMINHOS DA VIDA"
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Até o próximo post supérfluo que publicarei, ou não, risosssss!