sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

De máscaras e mascarados

Retire a máscara e os vincos de tristeza dessa face, mas tome cuidado, não deixe cair no chão a velha máscara da falsa alegria, você vai precisar muito dela nos próximos dias.
Desfile seu charme pelos bailes e bares, sorridente e com o seu bem, pode ser arlequim ou pierrô, pode ser até os dois. Ninguém vai apontar nada de feio em você, tranquilidade total.
Já na quarta-feira, confetes e serpentinas irão juntar-se às suas perdidas e amarrotadas fantasias, mas as cinzas serão lançadas sobre sua cabeça, arrependimentos virão à tona.
Voltaremos a ser mascarados de cara limpa, na rotina dos dias arrastados e sem máscaras de pano, de cara limpa. Haverão contas a pagar, roupas pra lavar, filas em pé por horas e horas em bancos e supermercados, crianças e velhos pedindo esmolas sem que você os possa confortar, notícias catastróficas nas grandes cidades, secas e inundações.
Esqueça!
Por enquanto, divirta-se!
Pule ao som das velhas marchinhas.
Afinal, é carnaval...
Máscara Negra com Zé Kéti! Essa daí marcou demais os meus jovens e belos bailes de carnaval de salão.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Retrato em sépia

Um batizado simples na igreja da matriz de uma criança que não chegou a vingar. Semanas depois, a coqueluche viria a tragar aquela frágil vida.
O que sobrou? O que ficou?
Ficou uma foto gasta que jazia no fundo escuro do meu passado. Olhos e mãos ávidas gritaram forte e puseram-se numa tentativa ensandecida de recuperar detalhes, retalhos de um tempo perdido numa colagem fervorosa e paciente, mas até que valeu a pena, e eu tentei, tropeçando daqui e dali, resgatei os "mortos" mais vivos da minha vida: irmã, pai e mãe. Quando o rostinho desfocado da menina surgiu do nada, eu quis logo que fosse em sépia, uma tonalidade com aquele ar antigo e elegante. A irmãzinha que não conheci estava ali, aconchegada nos braços da minha mãe. E eu, no colinho do papai, satisfeita da vida por um breve momento.Tudo passa, sabemos, tudo é efêmero, temos a certeza disso, mas recordar é viver. Vocês não concordam comigo?
Parafraseando Drummond: "De tudo fica um pouco."
Bem, já que falamos em retrato, vou chamar aqui o nosso Chico Buarque para nos embalar com Retrato em Branco e Preto.
Canta pra nós, Chico!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Stalker - O Caminhante de Tarkovsky

Um homem simples, um segredo. Um lugar proibido e muitos obstáculos, mas só ele, o caminhante, poderá conduzir "os seus amigos" até lá, um cientista e um poeta. Para ele, conduzir os amigos à verdade das verdades era mais que um dever, tornara-se uma missão sublime.
O lugar (The Zone) possui vida e regras próprias de conduta e, aos poucos, o cenário vai mudando. As cores, antes sombrias, vão-se cambiando, tudo clareando até ficarem límpidas como a água que, sem dúvida, é o elemento mais presente nesse trabalho ímpar de Tarkovsky. O sol vem depois e com a sua luz liberta o homem e a natureza. Aqui, os arbustos estão em plena florescência e o stalker abraça a relva em flor, deita-se sobre a terra e parece contactar-se com a alma telúrica. Não esperemos efeitos especiais de uma obra como essa que por si só desafia a todos pela sua profundidade filosófica, metafísica e também espiritual.
Cientista e poeta se entrechocam até fisicamente, são os egos humanos em conflito mortal, mas não se matam e o stalker os separa. Uma espécie de acordo tácito se realiza sem precisar ser explicitado.
Simbolismos em cima de simbolismos,camadas e mais camadas de subtextos, metalinguagens e metáforas. Quem tiver a ventura de assistir Stalker o interpretará de acordo com o seu material inconsciente ou com a sua bagagem de vida, "pense o que quiser", poderia ter dito Tarkovsky. Daí, esse filme ter marcado tanto o seu autor quanto quem o assiste. Stalker perpetuou-se e transformou-se num enigma de infinitas vertentes. Não tentemos explicar o inexplicável. "O que vocês querem de mim?"
"Por que querem me devorar?"
Essas são apenas duas das questões que o caminhante nos propõe. Não nos esqueçamos da esfinge desafiando Édipo: "Decifra-me ou te devoro!"
Andrei Tarkovsky - 1932/1986...
Ithamara Koorax, quem se lembra? Voz possante, afinada e presença de palco avassaladoramente bela ao interpretar Se eu Quiser Falar com Deus.
Vamos, vamos ouvi-la...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Operação Natal - 2011

Uma ducha de água morna bem prolongada e, ao final, outra fria, tornam o corpo e a circulação renovados. Foi assim que a cabeça da professora Bianca voltou ao seu estado natural e já vestida no surrado roupão alaranjado, liga a TV para assistir a uma novela qualquer. Não consegue assisti-la e adormece.
O homem alto de vastos cabelos negros a enlaça pela cintura e lhe diz uma senha ao ouvido: OPN2011.
- Não vai dar, não dá, rapaz! Vou ter que me preparar muito, aprender idiomas, roupas, não nasci para ser espiã.
Uma estilista de moda é procurada e lhe fornece roupas adequadas, desde o algodão simples ao quentíssimo astracã.
O sol está a pino, Bianca dirige-se ao guarda do presídio público e pede-lhe para encontrar-se com Dario, ex presidiário.Trata-se de um prédio cinzento, aspecto sinistro e muitas grades. Atravessa o enorme portão de ferro e depara-se com Dario que tem o semblante marcado após cumprir dois anos de pena, está livre e muito confuso.
- Moça, eu estou recuperado, acredite! Começa a defender-se quando ela o interrompe dizendo apenas o código OPN2011. Pegam um táxi para o aeroporto rumo à Finlândia.
Paisagem fria, sóbria, pode-se dizer que até de uma beleza melancólica, mas que os atrai. A neve recobre alguns pinheiros e crianças de gorros coloridos estão construindo seus bonecos grandalhões de neve para depois os chutarem. Estão brincando, é assim a tradição dos brinquedos de neve nos países frios.
A cabana de madeira já começa a despontar ao longe, o carro desliza na pista e estaciona próximo a uma cerquinha carcomida. Algumas batidas à porta e um homenzinho pequeno os atende sorridente.
- Fiquem à vontade! Diz um senhor de barbas grisalhas e bem aparadas. Um chocolate quente é servido com uma bandeja de biscoitos de avelãs.
Na parede em frente, a professora vê um mural que representa um recém-nascido deitado em um bercinho tosco numa referência clara ao nascimento de Jesus.
- Meu nome é Noel, apresenta-se o anfitrião. Sim, sou o tradicional Papai-Noel, mas o que todos desconhecem é que apenas sou mais um de uma dinastia que remonta a eras passadas. Bem, lhes daremos o material necessário (livros, dvds, etc.) para que possam ter a dimensão exata do nosso trabalho nesse planeta. A missão de vocês realmente é secreta, mas não envolve a entrega de presentes ou bens materiais, melhor seria que nunca tivéssemos que ceder a esse tipo de pressão comercial, mas o que está feito, está feito.
- Como assim? Dario atreve-se a interrompê-lo.
- Meus jovens amigos, os presentes camuflam problemas e carências infantis muito sérias. Busquem esses pequenos e preencham suas almas com afeto. O Natal é isso, distribuição pelo ano inteiro de amor e compreensão para todos. O cessar das disputas, das guerras e dos interesses mesquinhos que se alojam na parte obscura do nosso ser. Amor, basta o amor...
Um sino toca ao longe, Bianca acorda assustada. Teria sido apenas um sonho?
Ficou a mensagem e Bianca decide passá-la aos seus alunos. AINDA RESTA UMA ESPERANÇA. E vem chegando aí o rei, Roberto Carlos, para nos encantar com sua emocionante interpretação de Força Estranha, vamos nessa?!!!
"Eu vi o menino correndo, eu vi o tempo..."
Feliz e suave Natal para todos que, de alguma forma, me auxiliaram nessa jornada virtual que não é fácil, mas nos recompensa afetivamente e efetivamente!


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A Moça, A Chuva

Daquele décimo andar, eu podia ver com nitidez as densas nuvens carregadas que ameaçavam desabar sobre as cabeças dos pedestres lá embaixo.
A moça de vestido branco de malha, alisou, com uma das mãos, os cabelos que o vento deixara em desalinho, sentia-se nela uma certa tensão nervosa, o prenúncio da tempestade agitara sua dócil alma. Andou mais rápido, mas as gotas já começavam a cair pela calçada, uma gotinha aqui, outra mais adiante, começou então a chover. Segura no apartamento, avistei um carro cor de prata que ia diminuindo a marcha até estacionar bem próximo àquela desprotegida jovem. Um braço muito peludo, masculino, estendera-se e fez sinal para que ela entrasse. Ela não entrou, acelerou ainda mais o passo, preferindo banhar-se com água de chuva a ter que aceitar o enganador conforto do dono do carrão reluzente.
- Recolha o teu braço e a tua sórdida libido, homem prepotente! Pensei e sorvi aquele momento tão fugaz, mas que revelava a retidão de caráter de uma mulher anônima, empapada de chuva até o último fio de cabelo.
A moça dobrou a esquina, enlameando seus delicados pés nas sujas poças d'água...
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Ah, já ia me esquecendo da trilha sonora! Que tal Jorge Benjor e Toquinho? Ótimos, né?
"Lá fora está chovendo
Mas assim mesmo eu vou correndo
Só pra ver o meu amor
Ela vem toda de branco
Molhada
Linda e despenteada
Que maravilha..."
Que Maravilha é o título da música e tem aquele final fantástico:
"A girar...
A girar..."

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Para onde levaste este sorriso?

Nada mais eu te pediria Se me devolvesses o teu primeiro sorriso Aquele da nossa primeira e única vez onde Nossos olhos suplicantes se cruzaram Aquele que me revolveu o desejo de voltar a Ser mulher De ser íntegra na entrega aos teus braços Mas veio a tempestade e nos arrastou para pontos opostos Descaminhos de uma vida que não pedimos pra ter Perdemo-nos nas sombras do passado sem futuro Perdi irremediavelmente essa boca de tantas promessas silenciosas e doce sorrir Agora Responda-me por Deus e por todos os deuses universais
Para onde levaste este sorriso?

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Quem é o moço da foto?
Só poderia ser Jensen Eckles, tido como um dos homens mais bonitos da atualidade e ator do seriado Supernatural. Meu marido já me desculpou por essa paixão impossível, mesmo porque ele também tem as dele... virtuais, lógico!
Musiquinha para embalar os corações apaixonados: For Once my Life com Gladys Knight e Frank Sinatra. Tem música mais romântica que essa?

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Tomar pingado em Taquarivaí


Me deixa ser feliz!
Cantar Amar Sonhar
Me deixa ir pra Taquarivaí
Não me mande viver em Maracangalha
Pois não quero conhecer a Nália
Em Pasárgada tem um rei que é a lei
Lá não tem a cama que escolhi
Nem o homem que sempre amei
Quero ver gente simples na rua
Uma praça bem pequena
Em verdes se desdobrando
Agora vem o melhor
Vem doçuras de um pingado
Café com leite no copo
Fumegante
Vem quenturas e delícias
De uns salgados estalando
Mas eu só quero mesmo
É esquentar meu peito com um pingado
Mas só se for de Taquarivaí
Taquarivaí é um pequeno e acolhedor município do interior paulista com apenas uma avenida, algumas casinhas brancas e gente muito boa. A inesquecível canção Luar do Sertão de Catulo da Paixão Cearense completa a paisagem bucólica. Que tal pararmos e apurarmos os ouvidos para essa melodia e versos imortais interpretados pelos mestres Gonzagão e Milton Nascimento? Vamos lá, é só enquanto tomamos um pingado...

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O que guardamos no céu da boca


O poético seria dizer que são estrelas no fundo escuro das noites sem fim das galáxias em espirais medonhas engolfadas por buracos negros.
Mentira.
Mera hipótese literária.
Uma língua úmida de palavras desconexas com ilimitados nexos passeia pelos dentes afiados lisos brancos arredondados desafiados a morder a quem aparecer pela frente feito cachorro louco raivoso.
Emudeceu. Guardei a língua para não te dizer palavra.
Não prometo ao mundo minha mudez. Prometer não muda.
Prometer mete a lâmina afiada na criança do poema que não nascerá.
Promete-se nada se cumpre. No céu da boca guarda-se cuspe.
Saliva amarga

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Rosa Passos canta - canta de verdade - 'Curare' de Bororó.

Ouve, gente! Sem pressa! Isso é papa fina...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Anjos e Ângulos


Um anjo solitário sobrevoa a imensa e urbanizada Berlim. Pára por alguns minutos e repousa sobre um monumento dourado com a forma de anjo alado - ele não possui asas, ainda. Mas esse anjo, em particular, não deseja mais o status celestial, ele quer ser humano, amar, sofrer e se angustiar com a paixão que sente por uma bela, escultural e triste trapezista de circo.

Asas do Desejo (1987) de Wim Winders é um sonho, um poema que alia sensibilidade e técnica no mais alto grau da construção cinematográfica em todos os tempos. Está no topo, dentre os, pelo menos, cem filmes mais importantes do mundo. Mas querem mesmo saber o que me encantou nele? Pois bem, vou revelar-lhes:
- Seus ângulos, seus amplos planos do alto, do céu. É aquele negócio de você entrar no filme junto com o diretor e personagens e suspirar de tristeza quando o filme acaba. Aí, a gente volta a revê-lo e o vemos, mas com um novo olhar, prestando atenção aos mínimos detalhes e diálogos que nos escaparam da primeira vez.
Por exemplo, a atuação do saudoso Peter Falk (o Columbo do seriado que marcou época) é brilhante por ele ser um anjo que convive com os humanos sem que os mesmos possam se dar conta disso. Creio mesmo que na vida real, Falk também detivesse esse toque de carisma angelical. Adorável Peter Falk, sempre te amei!
A filmografia de Wim Wenders é extensa, com seus curtas e longas metragens que nos arrebatam e nos prendem a atenção como se fôssemos, volto a repetir, co-partícipes das suas filmagens.
Aproveitei também o ensejo para inserir três fotos do grande diretor, já que o mesmo mostra-se um fotógrafo espetacular das coisas mais simples da vida e, para quem desconhece, começou sua carreira como desenhista.Não lhes peço que gostem do que aprecio, porém se sobrar um tempinho,tentem se envolver de corpo e alma na estética transcendental desse mago do cinema.
Angie com os Rolling Stones faz o fundo musical. Wenders sempre curtiu um rock balada bem maneiro.
Então tá! Por hoje, é só!Vamos dar asas à nossa imaginação...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Vocação é voz interior - Vítor Binot

Há pessoas que ouvem uma voz dentro de si e, simplesmente, a seguem. Com o jovem Vítor foi assim. Filho de uma radialista famosa, Yara Salles, ele, simplesmente, partiu num avião rumo à Índia onde seria iniciado como monge budista. Naquela época, a sociedade ainda não aceitava bem as religiões orientais e criou-se todo um debate em torno do assunto que perdurou por meses.
O tempo passou, a TV exibiu uma entrevista com um homem na faixa dos seus trinta anos numa noite inesquecível, finais dos anos setenta. Rosto tranquilo e sorridente, Vítor Binot respondeu a todas as perguntas enfatizando da sua emoção quando entrou pela primeira vez no templo onde passaria muitos anos na convivência com seus mestres e amigos. As cores do local e os sons dos mantras budistas lhe proporcionavam momentos raros de elevação espiritual o que lhe serviu de base para o seu longo aprendizado religioso e pessoal. Aprendizado esse que foi repassado na sua academia familiar àqueles que o procuravam quando retornou ao Brasil.
Vítor não ficou muito tempo entre nós, faleceu de leucemia pouco depois, mas ficou imortalizado na alma de quem, de uma certa forma, compreendeu sua simplicidade de ser e, principalmente, a sua maneira de estar no mundo sem se apegar a ele como naquele ritual milenar em que monges principiantes pintam uma mandala com areias coloridas para, em seguida, desmanchá-la com um simples sopro.
A vida humana é apenas um sopro diante da eternidade, seria essa a mensagem?
A cantora Joyce, uma de suas discípulas, com muita inspiração, sintetizou magnificamente o que Monsieur Binot nos legou em uma das suas canções.Vamos ouvi-la?