segunda-feira, 25 de abril de 2011

Uma Francesinha na Família

Importada de Paris, usando seu pretinho básico, ela foi se entrosando na família através das mãos e dos olhos perspicazes do nosso pai. Daí por diante, todas nós, as suas meninas, fazíamos poses de artistas, mas tudo em preto e branco e aquele homem apaixonado por fotografia não deixava passar uma chance, um momento sequer da nossa infância para nos pegar nos ângulos mais interessantes, a ponto de nos arrastar da cama aos domingos para fazermos gracinhas e esboçarmos aquele sorrisinho bobo de "olha o passarinho."Mas o tempo, senhor supremo do universo, fechou os olhos do nosso fotógrafo mais sensível e amado. A francesinha foi ficando surrada e acabou abandonada no fundo do armário. Zanguei-me com esse cara tão impiediso que, além de arrancar de nós o doce pai e fotógrafo, também tentou lançar a nossa francesinha no mofo do esquecimento. Aqui está ela, meus amigos!
Sem uso,solitária, mas inteira e orgulhosa pelos bons serviços prestados à família, embora aquele olhar por trás da lente tenha se apagado para sempre e as suas meninas tenham crescido e se separado para seguirem seus destinos. Sem choro, sem lamentos, deixo aqui registrada uma saudade insistente que teima em não me largar.
Só uma música também francesa, tida como aquela dos versos mais perfeitos da história musical de todos os tempos, poderia nos envolver nesse clima tão confessional. Ouçamos 'Ne me quitte pas' com seu maravilhoso criador, Jacques Brel, que a interpreta de forma triste após a perda da mulher amada. Perder aqueles que amamos nunca será fácil.
"Não me deixes...
Não me deixes...
Não me..."

Amigos, estamos saindo de férias. Volto ao final de maio, se Deus quiser!
Au revoir!!!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Rezando para o dia amanhecer

O psicanalista Carl Gustav Jung passou quase toda a sua longa existência pesquisando mitos e símbolos de todos os povos e culturas da humanidade. E vindo parar aqui, na América do Sul, encontrou-se com uma comunidade indígena peruana que lhe afirmava com fé que deveriam subir a montanha de madrugada e rezar para o sol nascer. Curioso, o grande pesquisador perguntou-lhes: - E se vocês deixarem de fazer esse pedido ao sol, o que poderá acontecer? Um deles, respondeu-lhe: - Se não rezarmos, a terra se acabará. Essa foi a missão que os nossos antepassados nos confiaram e a cumpriremos até o último dos nossos dias. Sempre pensei nesse episódio e agora, em face de tão graves ameaças à vida na terra, volto-me mais e mais para esses questionamentos metafísicos. Peço-lhes somente que nos ajudem a responder as seguintes indagações: Será que os Índios Pueblos deixaram de rezar? Extinguiu-se a comunidade que cumpria com tanto rigor esse ritual milenar? Em caso afirmativo, quem rezará todas as madrugadas para que os dias continuem a amanhecer? JOÃO NOGUEIRA:Êta compositor, cantor, poeta maior e inesquecível que o Brasil ainda ama e amará sempre, de paixão! Ele aí vem, cantando para limpar as águas de todos os mares. Exorcizando, assim, os males daqueles que pensam que mandam e desmandam e, insanamente, tentam nos destruir com intuitos inescrupulosos, mas não conseguirão. Só podia ser "Das 200 pra lá" ou,como ficou conhecido popularmente,"Esse Mar é meu". Com certeza,esses mares,oceanos e águas pertencem a todos os seres viventes do nosso sagrado Planeta. Vamos nessa, João?

segunda-feira, 21 de março de 2011

Ninguém me Avisou que o Mundo Acabou

Eu pretendia falar do Japão, mas lembrei-me de Chernobyl, mas lembrei-me do Césio no Brasil. Lembrei-me das crianças morrendo na África, da Guerra da Bósnia, crise em Portugal, guerra sangrenta na Líbia, o desemprego no mundo. Chega!
Conclusão:
O mundo acabou e ninguém ainda me avisou. Mas a lembrança de um antigo festival da MPB, onde surgia o profético e irreverente Eduardo Dusek, trouxe-me a salvação para esse post. Chamava-se Nostradamus, a música, e está aqui ao lado. Vai valer a pena ouvir de novo! Ouçam, eu tô pedindo.
Na primeira imagem, vemos a beleza nevada do Monte Fuji. Esse era o Japão dos nossos sonhos, sereno e com as suas cerejeiras em flor.
Já na segunda, encontramos uma das cenas do filme Rapsódia em Agosto do genial, premiado e ESQUECIDO, Akira Kurosawa. Os moderninhos - se ainda estiverem vivos - o acham ultrapassado. O notável criador de Ran e Os 7 Samurais tascou nas nossas caras o resultado do alto preço que estamos pagando pelo tal progresso a qualquer custo. Um desenvolvimento perverso onde a vida humana e a saúde do nosso planeta não valem absolutamente nada.
JAPÃO:
População: 128 milhões de habitantes e todo mundo comendo, bebendo, trabalhando (não vamos negar) e usufruindo de uma tecnologia fora de série, estupenda, sem precedentes no mundo ocidental.
População de Tóquio: 30 milhões de pessoas concentradas na maior área metropolitana do mundo, é muita gente junta, fico me coçando só de imaginar.
País insular com 6.852 ilhas, muitas delas vulcânicas, detém em seu território 55 usinas nucleares que sustentam toda essa enormidade de confortos e coisas que tais.
Fukushima em chamas e a megalomania de muitos virando fumaça,radioatividade, mortes, sofrimento e dor. O mito caiu e o santo era de barro, os grandes cientistas não conseguiram prever e, principalmente, prevenir uma catástrofe de tamanha magnitude.
Dessa vez, meus amigos, a culpa não foi de Deus!
A lição foi dura, temos que repensar tudo de novo.
Do comecinho, ou...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Olhos de Espuma

Um par de olhos espreitavam aquele minucioso e pormenorizado ritual. Vanda destacava a tampa da lata de sabão pastoso que, por sinal, mostrava uma aparência rutilante ao sol e um aroma que de tão penetrante invadia todas as casas da vizinhança.
Degraus de mármore alvíssimos eram esfregados palmo a palmo pelas mãos ágeis daquela senhora. Em consequência, bolhas transparentes e coloridas surgiam para extasiar aqueles olhos observadores. Olhos que escorregavam na espuma de um passado sem retorno, obscuridade.
Na face de Vanda havia uma expressão contida, mas satisfeita, nada mais.
O trabalho iria se repetir sempre, dia após dia. A escadaria branca ia ficando mais e mais clara, transparente, até desaparecer no tempo-espaço da relatividade einsteiniana.
Os olhos viam. A mente não correspondia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Filmes espiritualistas, mas sem preconceitos, OK?

Anda acontecendo um fenômeno, no mínimo, muito interessante no cenário cinematográfico mundial. Direto ao assunto e, por favor, vamos encarar as coisas com a mente aberta, sem aqueles resquícios de "essa não é minha religião", "sou ateu de carteirinha", aquelas bobagens todas. Vamos crescer, por favor.
Comecemos por aqui mesmo, no Brasil, onde foram lançados, já faz um tempinho, dois filmaços sobre a imensa obra mediúnica de Francisco Cândido Xavier, o nosso generoso e despojado Chico Xavier que vendeu uma fortuna em livros, mas não ficou com um níquel sequer; viveu e morreu modestamente da sua aposentadoria.

O filme Nosso Lar retrata com acerto e de forma fidedigna as intempéries da vida além-túmulo. Cenários computadorizados, modernos e uma linha de grandes atores.Não perde nem mesmo para os filmes internacionais, é bom.

O outro é a própria biografia de Chico Xavier - esse também o título -, onde documentário e filmagem dos episódios mais marcantes da sua longa existência são misturados na dose certa. Sem erro, um filme imperdível e com uma passagem até cômica quando Chico que tinha medo de avião, ficou aterrorizado ao viajar em um deles, sendo severamente recriminado por seu guia espiritual, Emmanuel. Mas continuou a gritar feito louco no avião, mostrando que mesmo as pessoas mais elevadas, moral e espiritualmente, também têm seus momentos de fragilidade.

O terceiro é Meu tio Boonniee e suas Vidas Passadas. Aqui, eles não facilitam para o grande público, é arte pura, mas com fundamentos budistas e nada, nada ocidental. Um homem vai para a floresta da Tailândia com alguns familiares e de forma naturalista, sem efeitos especiais, se reencontra com familares já falecidos e outras lendas que povoam o imaginário desse país. O filme levou, com muita justiça, o Cannes de 2010 e está arriscado a arrebatar o Oscar de melhor filme estrangeiro. Para ver duas vezes. Uma só, não dá, gente.

Comer, Rezar, Amar é bastante hollywoodiano, mas transcorre bem, apesar dos clichês. Julia Roberts que renasce das cinzas (ela andava muito caidinha) no papel de uma mulher rica e malamada, encontra um velho guru que lhe diz tudo sobre o passado, presente e futuro. Ela reza no Cambodja, capital do Vietnã, come na Itália (e muito) e encontra o amor de sua vida no personagem de Javier Bardem que, curiosamente, faz o papel de um empresário brasileiro com sotaque espanhol. Lógico, né? O Bardem nasceu na Espanha. Imagens bonitas e, felizmente, tudo acaba bem. Podemos assisti-lo sem desgosto.

Ah, queria assinalar também um seriado muito bem feitinho que é o Ghost Whisperer. Nesse, vocês vão sentir um pouquinho de medo, pois os espíritos sofredores aprontam poucas e boas antes de se renderem ao charme da talentosa atriz Jenifer Love Hewitt. Os episódios são curtos, mas têm uma equipe técnica de primeira, composta até de médiuns renomados que prestam assessoria ao seriado. Legal mesmo! Eu adoro!

E para encerrar, vamos ao Biutiful (é assim mesmo que se escreve, não errei não, pelo menos, dessa vez). Pessoal, coisa de gênio, viu? Outra vez e sempre, o super ator, Javier Bardem dá um show de interpretação. Um homem doente, desempregado e com dois filhos pra criar (sentiram o drama?), lá no México (meu Deus!), um pária social que vive de golpes e trambiques, porém, recebe uma ajudinha dos desencarnados...enfim, vejam!
Falando um pouco sério agora, será que essa tal explosão de espiritualidade não se deve também ao declínio do materialismo em que vivemos mergulhados e agora, com as crises americana e européia, muita gente boa está parando para fazer suas reflexões?
É o velho e bom ditado: " Se não vai por amor, vai pela dor!"
Inté!
Fui!
Mas eu volto...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dissolveram o Dedo de Deus em Teresópolis


Teresópolis da minha infância. Crianças rolando na grama e o aroma das flores silvestres infiltrando-se nas nossas respirações, pulmões cheios do ar mais puro do planeta. As brumas da manhã trazendo aquele frescor esbranquiçado às serras, enquanto o Dedo de Deus (a montanha mais especial depois do Himalaya - não, não, O DEDO DE DEUS será sempre mais importante para mim, devo ser franca) apontava para o alto, só para nos dar a certeza de que a felicidade seria eterna. Felicidade eterna, que utopia é essa, menina?
Certo dia, que ninguém imaginava que chegasse mas, desafortunadamente, chegou, o tempo fechou-se, ficou zangado, veio o dilúvio. Deus retirou seu sagrado dedo da nossa paisagem e o apontou para os homens ambiciosos e tolos que construíram suas mansões irregulares nas encostas. A grama transformou-se em lama. Tudo e todos se sujaram, se enlamearam. Mortes soterradas, sonhos irremediavelmente perdidos.
Foi-se também no despencar das mais de oitocentas vidas uma das minhas mais doces e caras lembranças, perdeu-se mais essa. Estamos ficando pobres em boas lembranças e o tempo da inocência já passou.Não volta...

Não queria ficar falando em tragédias, pois seria uma redundância. A vida, por si só, sempre foi e será uma imensa e caótica tragédia, daquelas que só os gregos sabiam produzir.
Adeus, Região Serrana do Rio!
Paz para seus mortos, soterrados numa avalanche de pesadelos horrendos!
A música de hoje não há. Calaram-se as vozes dos cantores e os instrumentos estão desafinados. Nem os pássaros podem ser chamados, foram assassinados por nosso total e sórdido desrespeito à natureza.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Na Barraca do Pitoco

Célere, passa na calçada, um carrinho de rolimãs com Pitoco no comando. Cabeça, braços e sem as pernas.
Pernas, membros desnecessários, pois o garoto se locomove com a precisão de um piloto de fórmula-1.
- Sai da frente, minha gente!
A barraca do moleque é sortida de revistas, velhos discos de vinil e quinquilharias tão mágicas que quem já viu não se cansa de revê-las. As pessoas fazendo fila e trazendo em suas sacolas plásticas o verde da Esperança e a cor-de-rosa do Amor.
Cuca fresca e sem ter pernas, mesmo assim, eu não me arrisco a dizer que deva haver no mundo alguém mais feliz que Pitoco.
Felicidade não é ter corpo de deus grego nem diploma de doutor. Pare um pouco pra pensar e um dia, quem sabe, você até vai descobrir. A ficha vai cair, eu garanto.
E lá vem Roberto Ribeiro no seu Trem de Luxo da Central, indo lá pra Madureira onde há o maior comércio popular desse belo Rio de Janeiro. Capital do samba onde nasceu Natal da Portela que, com um braço só, fez coisa que você não faria. E só para terminar, preciso subir as escadas da Serrinha e beijar Vovó Maria Joana, Rainha do Jongo, herdeira das danças d'África para o Brasil transplantadas.
Tô indo nessa, moçada!
E você, não vem?

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Absorta


Estamos em tempos de Natal, Ano Novo, gente se acotovelando nas lojas. Filas, filas e mais filas.
Meu olhar percorre prateleiras, balcões e tetos brilhantes. Mergulho aos poucos em pensamentos cinzentos e sombrios. Lembro-me do meu pai oferecendo-me presentes e eu os recusava. Criança deprimida que era, nada me atraía, nada ainda me atrai no mundo do consumo fácil.
Hoje, nem pai, nem minha mãe e muito menos meus avós estão mais aqui. Restam-me pensamentos, fragmentos sem sentido, lembranças turvas, tudo sem sentido, e há sentido nas coisas?
Um homem passa ao meu lado e sussurra-me ao ouvido:
- Estavas tão absorta...

CANTANDO:
Belchior, esse gigante que veio lá do Ceará para nos arrastar para dentro do seu Coração Selvagem e com muita pressa de viver.
"Vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo..."
CORAÇÃO SELVAGEM
Composição: Belchior
Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja no seu copo, no seu colo e nesse bar
Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo, tenho pressa de viver
Mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro, ver e saber que eu te amo
Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem
Tem essa pressa de viver
Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida: Vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela
Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo , vem morrer comigo
Talvez eu morra jovem, alguma curva do caminho, algum punhal de amor traído, completará o meu destino
Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo
Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem
Que outros cantores chamam baby...

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Graciliano Ramos - Escreveu, Sofreu e Venceu

Um escritor que nunca fez questão em vir a sê-lo, vocês acreditam? Não? Pois no caso de Graciliano foi justamente isso que aconteceu. Ele era atípico no ofício de escrever, não se isolava do mundo real, ao contrário, queria e conseguiu retratá-lo tal qual ele era, obscuro e cruel.

Na sua loja de tecidos em Palmeira dos Índios (Alagoas), a figura de um homem cordial e amável sobressaía por detrás do balcão. Senhoras e moças da cidade, suas freguesas,assim como a minha mãe, iam até lá para escolherem seus crepes, sedas, linhos, chita ou algodão. Ele servia a todas com presteza, mas poucas palavras,acredito que, inconscientemente, as guardaria para suas obras-primas como Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárcere.
O que fervilhava na imaginação daquele homem tão sóbrio para que, na sua maturidade, próximo aos quarenta anos, se tornasse um dos mais importantes prosadores do Brasil ao lado de Machado de Assis e Guimarães Rosa? Nesse mistério, jamais penetraremos.
A situação toda parece ter acontecido meio por acidente do destino. Um tanto contrariado, mais para atender os apelos dos amigos e dos moradores da cidade, deixa-se lançar na política e não deu outra, ganhou a prefeitura.
Não só ganhou a prefeitura de Palmeira dos Índios como realizou a melhor administração de todos os tempos. Seus pareceres eram tidos como peças raras literárias e a notícia correu nordeste afora. Depois, foi chamado para ocupar dois cargos públicos em Maceió, diretor da Imprensa Oficial e também da Instrução Pública. A essa altura, Augusto Frederico Schmidt o estimulava a publicar seu primeiro livro, Caetés. Daí, não parou mais, virou celebridade, mas o homem tranquilo e consciente, nascido em Quebrangulo (lugarejo nos arredores de Palmeira dos Índios), não deixou a fama subir-lhe à cabeça.

Vidas Secas, seu livro mais conhecido, não tinha muitas páginas, era fino, de leitura rápida e direta, sem complicações léxicas, sem apelações para o sentimentalismo fácil. Graciliano não tolerava jogos de palavras e cada palavra que usava só lhe servia para deixar que a realidade se apresentasse tal e qual nasceu, nua e crua, das páginas de suas obras. A seca do nordeste era seca mesmo e o sofrimento atroz dos nordestinos era um sofrer real, sem maquiagens, sem palavrórios inúteis. Isso explica porque dispensava a poesia e nunca se ocupara em escrever uma sequer. Se, por acaso, surgir alguém que diga que achou um só poema de Graciliano, ou enganou-se ou age de má fé, pois ele declarava publicamente que não gostava de poesia. Fazer o que? Pelo menos, ele sempre foi firme e franco nos seus gostos e decisões.
Mudou-se para o Rio de Janeiro, bairro de Laranjeiras, onde exerceu o jornalismo e cercou-se ali, em reuniões no seu apartamento, das melhores cabeças da época, de Manuel Bandeira, José Lins do Rego a Carlos Drummond de Andrade. Que época de ouro, hein?
Mas o que era doce acabou-se com a ditadura de Getúlio Vargas e a tirania que nunca rimou com liberdade de pensamento o arrastou preso e humilhado em um navio infecto para a Ilha Grande, presídio sinistro, onde seria torturado e, pior que tudo, sem uma única acusação formal. Ele não era militante político de esquerda à época.

O seu defensor foi outro homem e jurista de enorme respeitabilidade, Sobral Pinto. Quero abrir um parênteses aqui para declarar que tive a honra de cumprimentá-lo quando fazia o meu curso de Direito. Ele estava já com cem anos, sua cabecinha parecia feita de flocos de algodão, mas palestrou com a lucidez de um bacharel de vinte anos. Ainda se fazem homens e profissonais assim? Talvez sim...talvez não.
Sabem qual a Lei que o mineiro ilustre da cidade de Barbacena - a cidade das rosas - aplicou para retirar Graciliano das garras da morte? A LEI DE DEFESA AOS ANIMAIS e o argumento foi claro, simples, mas incisivo:"- Se devemos, por Lei, proteger e respeitarmos os animais por que não o fazemos com os nossos semelhantes?" Assim, o nosso escritor ganhou a sua Liberdade. Saudade de ti, Sobral Pinto!
Memórias do Cárcere (virou filme com Carlos Vereza no papel principal) veio a público e Graciliano contou tudo, com aquele seu estilo exato, meio existencialista e psicológico, sem rodeios.

Contista de primeira, Graciliano nos impressiona com os seus relatos quase auto-biográficos, inclusive quando estava moribundo, no hospital, morrendo de câncer no pulmão de tanto fumar e, provavelmente, com sequelas sofridas na prisão. Em um desses contos ele fala das paredes brancas do quarto e da solidão de morrer só.
O cineasta Nélson Pereira dos Santos filmou com primor um dos dez melhores filmes do mundo, Vidas Secas, película que se insere ao lado de Cidadão Kane de Orson Welles.

E assim, vocês que chegaram até aqui comigo, podem já ter notado que, mais uma vez, o destino pregou-me uma grata surpresa: minha mãe recebeu seus vestidos das mãos de um dos maiores escritores do mundo e eu apertei a mão do melhor e mais generoso jurista de todos os tempos e um ciclo se fechou. Fui uma privilegiada e não sabia.
Graciliano Ramos, estóico e íntegro, gente de verdade, tu foste um ser iluminado e muito especial! Venceste!
Vamos falar um pouquinho do músico Hermeto Paschoal?
Multi-instrumentista, nascido em Arapiraca (alagoano também, esse danado), Hermeto retira sons até da natureza, desde canudos de mamona a uma poça d'água. Mestre em acordeon, flauta, piano, saxofone, trompete, bombardina, escaleta, violão e a lista não tem fim, minha gente.
Convidado a visitar os Estados Unidos, encontrou-se com Miles Davis e ambos trocaram experiências jazzísticas.
Apresentou-se com sucesso por quase toda a Europa, principalmente na Dinamarca, Alemanha e Suiça. É tido pelos especialistas musicais como "romanceador da música" e abriu as portas para a criação da Música Universal.
Ouviremos aqui a música"São Jorge" que nos apresenta o ritmo do galope de um cavalo chamado Faísca. Papa fina, gente! É mais que nordeste, mais que Brasil, Hermeto é um patrimônio vivo do nosso planeta.
Dá-lhe, Hermeto!
Volto ano que vem, se Deus quiser! Muita coisa pra fazer na vida real...
Boas Festas, amigos! Um glorioso 2011 a todos!
Obs: Retornarei a todos os comentários.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Ai, ai, que bom!

Quando li pela primeira vez Chuva de Caju de Joaquim Cardozo(1897/1978), fiquei tomada de muito prazer. Era aquilo mesmo que eu vira e sentira acontecer no nordeste brasileiro. A suavidade e a poesia telúrica estavam ali presentes nas imagens construídas por Joaquim que, apesar das dificuldades por que passam os sertanejos, ainda assim, ele trouxe-nos calores, sabores e aromas daquele chão crestado pelo sol. - Ei, dona Maria e dona Tereza, o que me trazem aí nesses cestos?
- É caju, meu fio, vai querê? Responderam ambas ao mesmo tempo.
Quem vê e vive cenas assim, jamais vai querer esquecê-las e, se possível, vai passá-las adiante.

Roçados de doces melancias, muricis com odor azedo e forte, umbus com gosto de mel e muitos cajueiros chovendo suas carnes suculentas a descer por nossas gargantas secas. Sucos e lambuzos de frutas e poesia que o Mestre pernambucano traduziu para nós. Até chinês ele lia no original, querem mais do que isso? Para mim é o suficiente se até no Português eu me engasgo.

Joaquim Cardozo não se contentou em ser Mestre na Poesia e sua estrada foi mais longa.
Ele tornou-se um dos maiores engenheiros calculistas do mundo e junto aos cérebros privilegiados de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa saiu construindo Brasília, Pampulha e muita arquitetura boa por esse Brasil afora.
Tímido ao extremo, manteve-se afastado das badalações literárias, mas suas Obras - no papel e no cimento - ultrapassaram fronteiras e se eternizaram feito as pirâmides do Egito.

Chuva de Caju

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Tereza, Maria?
Entre, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros.
E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quem te chamas, Tereza ou Maria?

Musicalmente, já que trouxe aqui o filho, Gonzaguinha, solicito agora, a gentileza ao pai, Gonzagão, para que se apresente e faça Elba Ramalho, essa menina arretada, cantar com voz de pastorinha a Estrada de Canindé. Venha, Elba, cante bonito pra gente!
Ouçam bem essa preciosidade que vai continuar na próxima postagem quando, se Deus quiser, pedirei a Graciliano Ramos que fale de Vidas Secas para quem quiser ouvi-lo. Mas me digam, meus compadres, quem aí sabe que o galo campina quando canta muda de cor? E essa gente andando a pé, vai oiando coisa a grané, coisas que pra mode vê, o cristão tem que andá a pé...